As outras guerras


Em 24 de fevereiro, o mundo estremeceu com a invasão russa da Ucrânia e, a partir desse dia, a guerra passou a fazer parte do nosso dia-a-dia, transmitindo quase ao vivo e fazendo com que a situação na Ucrânia ocupasse o maior espaço em qualquer media; por isso, é impossível que qualquer pessoa no planeta desconheça, hoje, a existência desse conflito bélico.

Diante de uma guerra, as pessoas revelam a sua sensibilidade, pois a palavra guerra é sinónimo de morte e destruição. Estaríamos, no entanto, enganados se diante de espingardas, bombas ou aviões concluíssemos que tais armas são as únicas a serem usadas ou as principais numa guerra.

Há uma arma estratégica em toda guerra – a desinformação. Uma desinformação que funciona como um míssil de controle remoto dirigido ao cérebro das pessoas e que explode assim que entra neles. Os efeitos deste míssil são tão prejudiciais quanto os das chamadas armas letais ou armas de destruição massiva, pois não mata de uma só vez, mas fá-lo pouco a pouco, e não mata uma pessoa, mas sim, com o tempo, a sociedade como um todo.

Esse míssil vai dando forma à nossa perceção da realidade com base num roteiro predefinido; transforma uns contendentes em bons e outros em maus, como se estivéssemos diante de um filme do Oeste Selvagem ou de um fenómeno religioso que confronta a maldade de um demónio com a bondade de um deus. Também determina que imagens e informações devem ser divulgadas e não o faz seguindo critérios informativos, nem procura fornecer várias perspetivas que favoreçam a reflexão necessária antes de se tirar qualquer conclusão. O objetivo final é que reajamos com base nos sentimentos que resultam da apresentação de certos factos e não da capacidade de compreendê-los.

Num mundo dominado pelas redes sociais e pelo que é imediato, essa tarefa é muito mais fácil, pois os eventos do dia-a-dia acontecem com tanta velocidade que não conseguimos parar para procurar as causas que estão por trás deles.

Diante da gravidade da situação na Ucrânia e da resposta imediata dada pela chamada "comunidade internacional" à adoção de sanções contra a Rússia, considerei que seria bom compará-la com outros conflitos bélicos nos quais também há pessoas a sofrer.

Yeslem Sidi, morreu em novembro passado bombardeado por um drone marroquino; ele não era um combatente; era um rapaz saharaui de 15 anos que viajava com o avô.

Razan al-Najar foi morta em 2018 por um disparo de um atirador israelita; na mão não levava nenhuma arma; ela era uma jovem palestina de 20 anos que era inconfundível por usar a bata branca de enfermeira.

Yeslem e Razan não podem opinar sobre o que está a acontecer na Ucrânia, porque o míssil que explode no nosso cérebro também nos diz quais guerras existem e quais não existem.
Marrocos e Israel são agressores em guerras que não existem e como essas guerras não existem, vieram condenar a invasão russa da Ucrânia por ser uma grave violação do direito internacional, tendo sido aplaudidos por terem feito essa condenação.


NOTA: este artigo foi publicado polo autor no pasado mes de marzo en Portugal; na revista do Sindicato dos Professores da Região Centro/Fenprof http://www.sprc.pt/_files/ugd/581d9c_ee25af23f6b14e8ca26a26aa28a62093.pdf