Ai! Desperta, adorada Galiza / desse sono em que estás debruçada
Hai mais de 150 anos Anhão escrevia estes versos para remover as conciências dos galegos porque as gentes emigravam por milheiros a outras terras. Ainda hoje tem actualidade este lamento, esperançado num rico porvir… que engergándose vay. O tal porvir foi, de certo, rico para uma oligarquia que soubo aproveitar as circunstancias mas dessa riqueça, pouco ficou para quem a produciu.
Hoje asistimos a uma nova sangria demográfica por falta de possibilidades reais para a nossa juventude. A Galiza de Anhão, estava dormida. A actual, após século e medio de tratamento de shock, está em coma. Um coma induzido para melhor lhe aplicar os métodos de sempre.
Duas reflexões
Mas não tenho intenção de fazer um canto fúnebre. Quero propor alguma solução, mesmo que seja paliativa. E, antes de apresentá-la, quero fazer duas reflexões imprescindíveis:
A primeira: o poder colonial (Espanha ou Xunta, tanto tem, deputações ou entidades financeiras) não têm a menor intenção de oferecer-nos nada que não exijamos. E quando o concedem pervertem-o. A mesma “autonomia” acabou por se converter nunha administração regional, de facto, inimiga de nós mesmos. O poder está ao serviço de interesses superiores e, só quando o pastel é grande de mais, reparte umas farangulhas para o povo. Estragou-se o pastel, somos os de abaixo os que passamos fome.
A segunda, derivada da primeira: temos que mudar de mentalidade. Até hoje vivemos no que poderiamos chamar “estrategia de resistência”: Imos aguentar até sermos o poder e, no entanto, encaramo-nos com o poder para evitar as suas malfeitorias. A eficácia dessa estrategia foi escassa. Tal vez passou esse tempo. As esperanças de alcançar o poder seguem longinquas. Mesmo quando o movimento nacionalista toca poder tem poucas possibilidades de fazer algo de calado (com a excepção, tal vez, de Ponte Vedra).
Mas não podemos adiar o futuro até sermos o poder político, porque isso pode não chegar e o sistema emprega todos os meios ao seu alcanço para o evitar. Somos poucos em termos relativos, mas somos uma minoria qualificada que pode fazer muito mais do que a maioria domesticada. E, de jogarmos bem as nossas cartas, seremos muitos mais.
Uma proposta: Criar um fundo financeiro
No entanto há que idear, promover e pôr a rodar projectos rendíveis económicamente que permitam avançar numa soberania económica, por limitada que poida ser; numa capacidade organizativa e na máxima eficiência. Demostrar que somos capazes por nós mesmos é o melhor meio de convencer. E, moi importante, esses projectos não podem depender do financiamento das instituições, porque no momento em que ponham as suas gadoupas nos projectos estes deixam de servir para o fim que foram desenhados e passam a ser úteis para o colonizador.
O primeiro passo visaria a criação dum fundo económico que permita financiar os projectos viáveis que se propuxerem. O fundo económico, na minha opinião, deve assentar na aportação regular, limitada e desinteressada dos socios, em sistema de cooperativa sem ánimo de lucro, ao geito das ONG que se financiam desse modo. Ponhamos que 5000 persoas (espero não ser optimista de mais) estiverem dispostas a donar 20 euros ao mes para este fim. Num mes alcançaria-se a cifra de 100.000 euros, em 12 meses 1.200.000.
,Não parece muito? Tal vez. Mas, qual é o creto que tem uma moça ou moço se se dirigir a um banco com o seu projecto? Sem aval, sem hipotecar, sem soldo… zero!
Uma vez consolidado o fundo financeiro, uma comissão de expertos deverá analisar os projectos que forem apresentados e a sua viabilidade económica. O fundo financeiro pode dotar os projetos de quantidades dinerárias variáveis e em diversas modalidades (associando-se, financiando a fundo perdido, em crédito…) e os benefícios, se houver, seriam re-encaminhados para o fundo.
Um sistema de controle interno inflexível fai-se necessário, obviamente. Mas o objectivo principal deve ser dotar de trabalho rendível, digno e justo á gente nova da nossa terra que está abocada á emigração... bom, agora chamam-a mobilidade laboral.
A recuperação das terras improdutivas e a produção de alimentos ecológicos, a repoboação das vilas e aldeias, a dotação de meios de transporte, educação e comunicação; o estabelecimentos de serviços sanitários; a investigação e desenvolvimento de tecnologias e um longo etc hão de ser os objectivos deste projecto.
Os galegos temos demostrado, frequentemente fora, a nossa coragem, a nossa capacidade de sacrifício, a nossa alta qualificação em grandes empresas dirigidas para o lucro privativo e a vaidade de sátrapa. Sempre edificadas sobre a exploração dos trabalhadores. Fagamos possíveis projectos eficientes para a dignidade de quem os levatarem e solidários para com os demais. É essencial construirmos uma malha produtiva que não dependa do poder político nem do financeiro e que faga... permitam-me o romantismo, PATRIA!
Assim poderemos entonar os versos de Anhão :
Ai! Desperta adorada Galiza
Desse sonho em que estás debruçada
Do teu rico porvir a alvorada
Polo ceu engergando-se vai.