Crise, especulação e o setor leiteiro galego

Há quem possa pensar que o PP não fez nada a respeito do setor agrário galego e em concreto a respeito do lácteo, mas não é certo, si que fez, bom mais bem haveria que falar que desfez

O sector leiteiro galego continua a esmorecer no que parece ser a cronica de uma morte anunciada. Uma crise que ameaça não só ao rural, senão ao conjunto da sociedade galega ao afetar a um dos motores da nossa economia.                

A produção de leite na Galiza, principal zona produtora dentro de estado espanhol, está diretamente influenciada por dous fatores; a situação internacional, e a política levada a cabo pelo governo galego.                

O primeiro tem muito a ver com os elevados custes de produção, sobre tudo no que diz a respeito da compra de insumos procedentes de fora das nossas granjas, vendo-se diretamente afetadas pelas constantes subas do preço das matérias-primas que se necessitam para elaborar as rações para alimentar o gado, e dos adubos para a produção de forragens, assim como  os contínuos  acrescentamentos dos custes energéticos (gasóleo, eletricidade e bombona de butano).                  

Neste dias nos que andamos têm aparecido nos meios de comunicação várias notícias referidas à preocupação, tanto do governo francês como do dos USA, pela suba dos preços agrícolas e nomeadamente dos cereais, e nesse sentido estão a promover uma reunião urgente  do G-20 perante o risco de que se recrudesça a crise alimentar como aconteceu no 2009.                    

Crise alimentar que há que enquadrar no contexto geral da crise global do sistema capitalista. A atual crise do capitalismo vem caracterizada pela especulação financeira, que tem a sua origem, em palavras de Edmilson Costa, “na internacionalização das finanças e na desregulamentação desse setor, favorecendo deste jeito uma mudança na correlação de forças entre as frações do grande capital internacional, passando a hegemonizar as decisões econômicas e políticas o setor mais parasitário subordinando todos os outros setores à lógica financeira, desenvolvendo de maneira acelerada um processo especulativo”.                  
Processo especulativo que adota a sua expressão no setor alimentar mediante a forma  da compra de terras férteis em zonas de América Latina e Africa, principalmente, e na especulação, no mercado de futuros, com as produções agrárias e em concreto com os cereais, com o agravante de que uma parte importante da sua produção não vai destinada para usos alimentares senão para a fabricação de biocarburantes. É de destacar que nos USA, principal produtor de milho em grão, ao redor do 40 por cento da sua produção se destina à fabricação de biocarburantes.                    

Se à especulação se lhe acrescentam fatores climáticos, como as grandes secas que estão sofrendo alguns dos principais produtores de cereal como Rússia e os USA (nos USA fala-se de que a deste ano é a pior seca nos últimos cinquenta anos), temos as condições propícias para que os preços das matérias-primas alcancem preços desorbitados o que logo repercutirá diretamente nos custes de produção das nossas granjas. Assim, se faz um ano um quilo de ração custava 33 cêntimos de euro, agora está nos 39 cêntimos, é dizer encareceu-se em um 18 por cento de média.                  

O outro fator que incide diretamente na situação do nosso setor leiteiro é a política levada a cabo pelo governo galego do PP.                    

Há quem possa pensar que o PP não fez nada a respeito do setor agrário galego e em concreto a respeito do lácteo, mas não é certo, si que fez, bom mais bem haveria que falar que desfez. Desde a Conselharia do Meio Rural trabalhou-se, e trabalhou-se com muito empenho em desfazer todo o entramado que tinha construído a Conselharia dirigida pelo BNG neste setor (contrato homologado, mesa do leite, observatório lácteo, modelo homologado de factura, comissão de seguimento dos contratos, Banco de Terras, Contrato de Exploração Sustentável, etc.).                  

Esta politica desenvolvida pelo nacionalismo tivera os seus frutos e o resultado mais evidente do exito dessa política foi que o preço do leite na Galiza, no período em que governou o nacionalismo, foi o mais alto que têm percebido as granjas galegas nos últimos 10 anos, por riba do preço que percebiam as granjas situadas no resto do estado espanhol e no estado francês. Hoje pela contra o preço percebido pelas granjas galegas é o mais baixo de todas as do estado espanhol e inferior às do estado francês, chegando-se a cobrar nesta banda do rio Eo 3 cêntimos menos que da outra banda. A jeito de exemplo uma granja galega cobrava no mês de Julho do 2011 30 cêntimos por litro, mas agora, em Julho de 2012, está a cobrar 27 cêntimos, é dizer um 10 por cento menos. Os custes de alimentação acrescentarão em um 18% e o preço do leite diminuiu em um 10%. Estas são as contas para este setor com o governo do PP.                    

Curiosamente agora as organizações agrárias que operam na Galiza vêm de iniciar uma campanha de mobilização para denunciar esta situação, e digo curiosamente por dous motivos. O primeiro porque o passado 5 de Junho tive lugar uma reunião destas organizações com a Conselheira do ramo e com Presidente da Junta da Galiza, senhor Feijoo, e as declarações emitidas, ao final da reunião, pelas pessoas que as representavam foram todas em sentido positivo, para louvar os compromissos adquiridos pela administração galega.                    
A outra razão pela que me surpreende a atitude destas organizações vem motivada pelo teor das propostas que apresentaram a meio de uma moção que recentemente se debateu nos concelhos galegos onde a produção de leite tem certo peso na sua economia. É chamativo que agora demandem mesas de negociação entre o setor produtor, a indústria e a distribuição, que demandem um observatório de preços das matérias-primas, contratos homologados com garantia normativa, e que falem da necessidade de que se atue de jeito decidido contra o déficit de terra. Todas estas demandas eram o cerne, junto com outras, da política que levou a cabo a conselharia do BNG.                    

Como diz o dito, “tarde piaches”.  Mesmo houvo uma organização, das que agora se mobilizam, que chegou a valorar ao conselheiro nacionalista Alfredo Súarez Canal como o pior conselheiro que tivera Galiza, e resulta que agora está a pedir nos concelhos galegos o que já se estava a fazer.                    

E deixo para o final a demanda que fazem em relação à necessidade de controlar às cadeias de distribuição a fim de evitar que se utilize o leite como produto reclamo baixando-lhe o preço. Logicamente não podemos estar em desacordo com esta petição, mas é chamativo que estas organizações se esqueçam de lhe pedir explicações e responsabilidades ao governo galego, quando a empresa participada pela Junta, Alimentos Lácteos, à que se lhe levam entregados mais de 7 milhões de euros do erário público, faz ofertas à distribuição a menos de 45 cêntimos o litro.                    

Este tipo de ofertas só se podem explicar porque ou se está a pagar o leite a uns preços muitos baixos no campo, ou diretamente não se está a pagar.                    
Chegados a este punto é bom lembrar que a maioria das granjas que lhe entregam o leite a esta empresa estão integradas em cooperativas. Pois bem, o que está a passar é que esta empresa tem sem pagar o leite de vários meses às cooperativas que fazem parte deste projeto empresarial o que à sua vez provoca que estas não lho possam pagar aos e às cooperativista, a maiores de contribuir a tirar os preços no campo, situação que é aproveitada pelo resto das empresas.                    
Este comportamento está a ter graves consequências para uma parte importante do cooperativismo lácteo galego, mas por outra parte também há outro grupo de cooperativas não integradas no projeto de Alimentos Lácteos que também se encontram praticamente numa situação de falência, devido à politica que lhe estão a impor as empresas recolhedoras. Se temos de conta que a dia de hoje Galiza carece de um âmbito galego de negociações para o leite e pelo tanto perdeu peso no contexto do estado espanhol, os preços são “inexplicavelmente” baixos, uma parte importante do nosso cooperativismo está em estado de falência, e se a maiores temos que o governo galego carece de uma política empresarial que  vise acrescentar o valor da nossa produção e pratica uma política de mobilização do recurso terra diametralmente oposto às necessidades do setor e ao que demanda a sociedade galega, e tendo de conta que nos encontramos ao final desta legislatura, pode-se, então, concluir que o balanço, deste governo do PP, é desastroso para o sector lácteo galego.