Das avelãs e do seu nome
16 de outubro de 2014 (00:00 h.)
Num artigo anterior falei da origem das castanhas e das castinheiras. Nele reivindicava uma origem atlântica e uma antiquíssima tradição alimentícia vinculada a elas no nosso território. Hoje falarei das avelãs.
Como quase todo o que não tem clara origem, este fruto seco foi vinculado (como não?!) ao efeito benfeitor dos romanos. Parez que os galaicos viviam, até chegarem aqui os conquistadores do mundo, numa espécie de bárbara ignorância, mesmo do seu meio natural. E parez também que os nossos intelectuais acreditam nessa imagem. Como a Galiza acostuma a estar fora da história...!
Vejamos que podemos achar sobre o seu nome.
Consultado o Dicionário Etimológico Hispánico de Joan Corominas achamos que a etimologia tradicionalmente aceite para este vocábulo é abellana nux, “nuez de Abella, ciudad de Campania donde abunda”. Seguindo esta etimologia, a RAG estabeleceu a ortografia da palavra com -b- num evidente esforço por latinizar ainda mais o nosso idioma... e de passo distanciá-lo da sua variante histórica (medieval) e internacional (as diversas normas do português).
Contodo o autor do citado Dicionário Etimológico acrescenta que o nome existe desde tempo de Cato, a veces escrito “avellana”. Também indica que o termo ABELLANA é o étimo do nome desse fruto unicamente nos tres romances ibéricos, na maior parte do território de Oc, em romanês e algumas falas do norte de Itália e da Sardenha. É curioso constatar que esse termo seja habitual em territórios celtizados com excepção de Sardenha e parcialmente no romanês.
Na wiki francesa diz: Avellana se rapporterait à la ville italienne d'Avella, dans la province d'Avellino, dont les noisettes étaient réputées, à moins qu'il ne dérive du gaulois Aballo, «pomme». Une «aveline» est une grosse noisette presque ronde et «avelinier» le nom ancien de cette sorte de noisetier.
(tradução: Avellana relaciona-se com a vila italiana de Avella (com uvê), na província do Avellino, cujas avelãs têm reputação, a menos que derive do gaulês aballo «maçã». Uma «aveline» é uma avelã grande quase redonda e «avelinier» o nome antigo desta sorte de avelaira.)
De procurarmos «avelã» na rede, em muitos lugares, supostamente especializados, aparece a afirmação, repetida sem constatar, de que as avelãs chegaram à Península Ibérica (nas fontes espanholas referem-se a Espanha) no século XIX. Suponho que esta datação faz referência à introdução dos cultivos intensivos pois temos o testemunho das cantigas para contradizer tal tópico: Bailemos… só aquestas avelaneiras frolidas…(Meendinho) que podemos remontar ao século XIII. Em consonância com esta evidência podemos recuar a chegada a esse século, como mínimo, ainda que é improvável que durante a Idade Média se tenha produzido uma migração desta espécie.
Mesmo Corominas nomea São Isidoro a citar o termo, ainda que isto não prova a existência da espécie na Península, necessariamente.
A avelã é o fruto da avelaira (Corylus avellana), um arbusto da família Betulaceae, que cresce naturalmente em quase toda a Europa, Ásia Menor e parte também da América do Norte. As árvores e arbustos desta família medram nas zonas areosas, ácidas e bem drenadas e são consideradas vegetação pioneira.
Especialmente interessante é a informação que aparez na Wikipaedia em inglês onde diz: Em 1995 acharam-se evidências Mesolíticas, com mais de 9.000 anos, de processado de avelãs a grande escala num buraco dum concheiro na ilha de Colonsay, na Escócia. A evidência consiste num grande e superficial buraco cheio de restos de centos de milheiros de cascas torradas de avelãs. ... As avelãs foram datadas, com radiocarbono, do ano 7720 +/-110 ane, o qual calibrado aproxima-o do ano 7000 ane. (texto traduzido)
Segundo esta informação é evidente que as avelãs levam alimentando os povos do ocidente desde muito antes de os romanos existirem como tais. Numa área onde sabemos que se assentaram os povos celtas.
Para estes povos a avelaira e o seu fruto eram uma fonte de sabedoria e inspiração. Sobre esta função existem diversas versões dum relato sobre as nove avelairas que rodeavam um poço ou estanque sagrado. Alí deitavam os seus frutos que serviam de alimento aos salmões que recebiam deles a sabedoria. O número de pintas na sua pele indicava o número de avelãs engeridas. O poder da sabedoria transmitida era tal que, na mitologia irlandesa, Fionn Mac Cumhail recebe o poder da omnisciência ao sugar a auga que lhe caira na mão desde o caldeiro onde fervia um salmão.
A presença desta árvore e das avelãs no folclore e tradições míticas gaélicas e britônicas indica claramente que a espécie não era apenas uma recém-chegada mas que fazia parte da sua cultura desde centos de anos, tal vez milheiros. E se nos climas frios das ilhas británicas era uma flora endémica, quanto mais nas mais cálidas terras do noroeste peninsular.
De quanto levamos visto podemos deduzir várias cousas. A primeira é que nem a árvore nem o fruto procedem de ningures pois a espécie é endémica das costas atlânticas de Europa e América. A segunda que um fruto e árvore conhecidos desde muito antes da conquista romana não precisaria dum empréstimo léxico para designá-la e ainda menos dum procedente dum topónimo. Então donde procede este nome? Na versão francesa da Wiki duvida-se se não terá origem numa palavra gaulesa (celta da Gália). Na minha opinião a origem da nossa palavra avelã (e das peninsulares) deve procurar-se numa lingua céltica do grupo gaélico falada no noroeste da península ibérica. Dela podemos procurar referências no gaélico escocês actual. Vejamos.
No dicionário MacBain podemos achar esta entrada
abhall an orchard, apple-tree, Middle Irish aball, apple-tree. (um pomar, maçaira; Irlandês médio aball, maçaira.)
O termo pronunciaria-se algo similar a [aβal], onde a beta soa como o -b- intervocálico habitual no nosso idioma, quase sem fechar os lábios ficando fricativa.
Ainda podemos citar outro vocábulo, emparentado com o anterior e de significado similar:
ubhal apple, Irish ubhall, Early Irish uball, ubull, Old Irish aball, Welsh afal, Cornish auallen, Breton avallen: *aballo-, *aballôn; English apple, German apfel; Lithuanian obu@olys. Stokes now queries German obst, fruit, Old High German obaz, Anglo-Saxon ofet, fruit. (maçã; Irlandês ubhall, Irlandês temperão uball, ubull, Irlandês antigo aball, Galês afal, Córnico auallen, Bretão avallen: *aballo-, *aballôn; Inglês apple, Alemão apfel; … Anglo-Saxon ofet, fruit.)
A pronuncia da palavra assemelharia-se muito com [uβal], pois, como no caso anterior a grafia –bh– repressenta na ortografia gaélica um som próximo do –b– intervocálico que acabou por se pronunciar –v– nas variedades medievais (daí a grafia) e na escrita do galego internacional.
Assim que abhall pronunciado [aβal] teria o significado genérico de fruta, pois a maçã é a fruta por antonomásia. Deste, ou dum termo muito similar, procederia o lexema da palavra. O sufixo –ã (-an na versão espanholizada do idioma) pode rastejar-se também nas línguas gaélicas como sufixo diminutivo escrito como –ann. Este sufixo viria a converter o termo em algo similar foneticamente a [aβalã] e a um significado de “frutinha”. De modo que, ainda que o termo não existe hoje no gaélico, é perfeitamente reconstituível a partir dessa língua e o termo adequa-se perfeitamente para designar a avelã.