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13-07-2019

A política de sanções de Washington estimulou os principais actores mundiais a afastarem-se do dólar, colocando em risco o seu status como moeda de reserva

Papel do US dólar como moeda de reserva está em risco

PAUL CRAIG ROBERTS

por Paul Craig Roberts
entrevistado por Ekaterina Blinova


A política de sanções de Washington estimulou os principais actores mundiais a afastarem-se do dólar, colocando em risco o seu status como moeda de reserva, afirma o economista americano Paul Craig Roberts. Ele também explica como o Federal Reserve manipula o preço do ouro a fim de escorar o dólar.

Enquanto a administração Trump toca o tambor do "fazer a América grande outra vez" e informa acerca de um crescimento rápido do Produto Interno Bruto (PIB) e de uma taxa de desemprego em queda livre, acumulam-se nuvens no horizonte da economia dos EUA e do dólar, afirma o Dr. Paul Craig Roberts, economista americano autor de mais de uma dúzia de livros. Ele foi secretário assistente do Tesouro para Política Económica no governo do presidente Ronald Reagan.

A espinha dorsal do poder financeiro dos EUA é o status do dólar como de moeda de reserva principal , o qual permite aos EUA pagar as suas contas com a impressão da nota verde. Depois de o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, ter desvinculado o dólar do preço do ouro, o Federal Reserve manteve durante muito tempo a ilusão de um dólar "estável" pois reduzia deliberadamente a cotação do metal amarelo, explicou o economista.

Agora, à medida que os actores globais começam a virar as costas ao dólar, mudando para moedas nacionais e utilizando o ouro como protecção (hedge) , a economia dos EUA pode deparar-se com uma pilha de grandes problemas, de acordo com o ex-responsável da administração Reagan.

Sputnik: O que está por trás das aparentes tentativas da Reserva Federal de reduzir o preço do ouro? Poderia a procura crescente por ouro afectar o valor do US dólar? Na sua opinião o dólar americano estará actualmente super-valorizado?

Paul Craig Roberts: A principal fonte do poder de Washington é o papel do dólar americano como moeda de reserva. Ser a moeda de reserva significa que há uma alta procura por transacções em dólar, para pagar as facturas de petróleo por exemplo, e que outros governos estão desejosos de manter dólares nas suas reservas. O facto de outros países estarem dispostos a acumular dólares significa que os EUA podem pagar suas contas imprimindo dinheiro.

O valor do dólar em relação às outras principais divisas, o euro, a libra britânica, o iene japonês, é manipulado dentro de uma faixa estreita. Quando o Federal Reserve começou a imprimir dinheiro (Quantitative Easing ou QE) a fim de resgatar os grandes bancos comprando seus derivativos hipotecários, os bancos centrais japonês, da UE e britânico também emitiram moeda. Uma vez que todos emitiram moeda, isto impediu que o dólar americano de declinar em termos de ienes, euros e libras.

A fim de manter esta ilusão de divisa com valor estável, apesar da emissão de moeda, o Federal Reserve tinha de impedir que o preço do ouro em dólar ascendesse. O modo como isso tem sido feito nos últimos anos é os bancos que actuam como agentes do Federal Reserve efectuarem vendas a descoberto (short sales) de ouro despejando grande número de contratos a descoberto ou "nus" no mercado futuro de ouro (Comex). A súbita aparição no espaço de tempo de um minuto ou dois, habitualmente em horas de negociação tranquilas, de um grande número de novos contratos deita abaixo o preço do ouro.

O preço do ouro é o único que não é determinado em mercados físicos onde as pessoas compram e vendem o metal físico. Em vez disso, é determinado num mercado de futuros, onde contratos a termo são liquidados em cash. Ao contrário do mercado de acções, onde um vendedor a descoberto realmente tem de cobrir a sua venda a descoberto dispondo das acções, no mercado de futuros do ouro a venda a descoberto não exige que o vendedor a descoberto tenha o ouro que está a vender. Ele, ou melhor, o grande banco, pode simplesmente imprimir contratos em papel, assim como o Federal Reserve imprime dólares, e deposita os contratos no mercado de ouro de papel.

O grande aumento na oferta de contratos de papel acresce a oferta de contratos no mercado de futuros e reduz o preço, subsidiando assim a compra real de metal físico pela redução do preço do ouro em dólar.

Os bancos que fazem estas vendas a descoberto obtêm grandes lucros. Como o choque de um grande número de descobertos reduz o preço do ouro, os fundos hedge vendem seus haveres no declínio, o que conduz os preços ainda mais para baixo. Então os bancos compram os contratos que eles venderam a um preço abaixo da cotação, fecham sua posição e contam seu lucro.

Todas as moedas ocidentais estão super-valorizadas em termos de ouro. Mais evidências são o declínio no poder de compra em termos de bens e serviços de todas as divisas ocidentais.

O papel do US dólar como divisa de reserva está em risco, porque as sanções impostas por Washington estão a afastar outros governos da utilização do dólar e do sistema financeiro ocidental. Como o papel do dólar como moeda de reserva diminui, assim o faz a procura por dólares. Quando a procura por dólares cai, também cai o seu valor de troca. O Federal Reserve pode imprimir dólares com os quais compra activos financeiros, como acções e títulos, apoiando assim seus preços, mas o Federal Reserve não pode imprimir divisas estrangeiras para comprar dólares com as mesmas.

Sputnik: Um seu artigo recente destacava que a taxa de crescimento da economia dos EUA está super-estimada pois o desemprego real é cerca de 20%, ao passo que a inflação é muito mais alta do que mostram os números oficiais. Quem é responsável por isto e quem se beneficia com as estatísticas distorcidas que não reflectem o estado real das coisas no país?

Paul Craig Roberts: Em 1995, durante o regime de Clinton, o Senado dos EUA nomeou a Comissão Consultiva para Estudar o Índice de Preços no Consumidor. A Comissão ficou conhecida como a "Comissão Boskin" devido ao professor da Universidade de Stanford que a liderou. Washington estava preocupada com os défices do orçamento federal. Os políticos gostam de culpar os défices em gastos sociais ao invés daqueles em gastos militares. Pensões de velhice da Segurança Social têm ajustamentos de custo de vida (cost-of-living adjustments, COLA) para que o poder de compra das pensões acompanhe aumentos de preços ou inflação. A Comissão Boskin argumentou que o modo como a inflação era medida exagerava-a e, portanto, o governo estava a pagar muito em COLAs.

Assim, a medida da inflação foi alterada de modo a que quando o preço de um item no índice de preços ao consumidor subisse ele era removido do índice e uma alternativa de preço mais baixo era colocada no seu lugar. Isto reduziu a taxa da inflação medida. Além disso, se o preço de um item no índice sobe, o aumento é atribuído a uma melhoria de qualidade e não é contado como inflação. Estas mudanças foram feitas apesar do facto de os consumidores experimentarem preços mais altos. A inflação simplesmente não é contada.

Ao manter baixos os gastos da Segurança Social, a mudança proporcionou mais dinheiro disponível para outras categorias do orçamento, de modo que os grupos de interesse atendidos por essas categorias foram beneficiados. Além disso, a indústria privada beneficiou-se na medida em que dispunha de mão-de-obra e outros contratos com cláusulas de custo de vida.

A Wall Street e os políticos Washington beneficiaram-se porque a sub-mensuração da inflação produziu uma maior taxa de crescimento do PIB real pela qual eles poderiam ser creditados. O Produto Interno Bruto é um número nominal baseado em preços. Para saber quanto do número do PIB é um aumento em bens e serviços reais e quanto é simplesmente o aumento dos preços devido à inflação, o número do PIB tem de ser ajustado à inflação. Por exemplo, se o PIB nominal subir 5% e os preços também aumentarem 5%, não haverá crescimento no produto real. Se o PIB subir 5% e os preços subirem 2,5%, o PIB real crescerá 2,5%. Quanto menor a inflação, maior o PIB real.

É provável que o crescimento do PIB dos EUA na última década seja, em grande parte, o resultado de aumentos de preços que as novas medições da de inflação não medem adequadamente. Assim, Washington beneficia-se da imagem ou ilusão criada pela sub-mensuração da inflação. O resto do mundo pensa que as coisas estão bem nos EUA pois a economia tem estado em expansão durante uma década.

O desemprego elevado é considerado um sinal de fracasso político. Para manter uma imagem de sucesso, o desemprego simplesmente não é contado. A menos que um desempregado tenha procurado emprego nas últimas quatro semanas anteriores à pesquisa, ele não é considerado como parte da força de trabalho e, portanto, não é contado entre os desempregados.

Sputnik: Donald Trump informa regularmente acerca de milhares de novos empregos. Ele quer dizer empregos de tempo integral bem remunerados? Será isso suficiente para consertar a situação? Será que actual crescimento do PIB nos EUA indica que a economia está de facto a prosperar?

Paul Craig Roberts: Os novos empregos, se realmente existirem, são primariamente empregos em serviços domésticos com salários baixos , cada vez mais em tempo parcial, pois empregos de meio período não têm a responsabilidade de providenciar cuidados de saúde ou benefícios de aposentação. Os empregos de alta produtividade e alto valor acrescentado, que proporcionavam um rendimento de classe média, foram transferidos para a Ásia de modo a que as corporações americanas pudessem reduzir seus custos de trabalho e aumentar seus lucros.

Sputnik: Observou que a Reserva Federal, o Tesouro e a Comissão de Valores Mobiliários poderiam intervir no mercado de acções para evitar uma queda. Como isso se alinha com o conceito de economia de mercado livre? Significa isso que os mercados norte-americano e global estão de facto sujeitos a um firme controle governamental/bancário? Como é que isso afecta o desenvolvimento económico do país?

Paul Craig Roberts: Não há mercados financeiros livres. Os mercados financeiros ocidentais e japonês são viciados (rigged) pelos bancos centrais. As compras de títulos pelos bancos centrais elevam os seus preços, reduzindo portanto as taxas de juros. Nos EUA, o Federal Reserve pode apoiar os preços das acções comprando futuros dos indexados na S&P. No Japão, o banco central realmente compra acções e agora detém uma percentagem significativa das acções japonesas. Por outras palavras, os mercados financeiros já não desempenham mais a função da "descoberta de preço".




O original encontra-se em sputniknews

Esta entrevista encontra-se em resistir.info