Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.
16-08-2017

Não é casual que o “ódio dos jihadistas” se assanhe preferentemente no R. Unido da Grande Bretanha e, em segundo lugar, na república Francesa

Brexit, jihadistas e independência 2

HENRIQUE EGEA LAPINA


A seguir continuo a analisar os atentados que os mussulmanos, chamados “jihadistas”, perpetram em nome do Estado Islâmico. Mas, nesta parte, procurarei remontar-me à origem do que na atualidade acontece.

Não é casual que o “ódio dos jihadistas” se assanhe preferentemente no R. Unido da Grande Bretanha e, em segundo lugar, na república Francesa. Nesta análise creio que ficarão patentes alguns dos motivos (e “justificações” do que é indubitavelmente condenável) dessas seletivas atuações contra os estados considerados “líderes” do mundo livre e garantes dos direitos dos (seus) cidadãos.

Mas, considerada a prolongada conflituosidade no Oriente Próximo, a análise vai ocupar necessariamente mais algumas entregas. Espero não desinteressar os potenciais leitores e que a longitude e densidade de dados não aborreça mais do necessário.

Comecemos a análise.

O final dos otomanos e o pacto Sykes-Picot

Um momento fulcral do assunto é a derrota do Império Otomano na Iª Guerra Mundial (1914-1918). Lembre-se que o império tinha baixo a sua soberania os atuais estados de Síria, Iraque, Jordânia, Líbano, Arábia Saudita, Iemen, Egito e... também Israel.

Para sermos mais exatos, o momento fulcral foi a decisão britânica de acirrar os sentimentos nacionais dos árabes, submetidos polos otomanos desde o século XVI, contra os turcos para melhor conseguir a sua derrota ao abrir-lhe uma fronte dispersa e dificultar o seu aceso às fontes de energia. Com certeza, muitos dos que leiam isto lembrarão a “romântica” figura de Lawrence de Arábia (coronel do exército britânico). Ele foi o encarregado de negociar com os xeques árabes e, nomeadamente, com o xeque da Meca, Hussain, para os árabes combaterem os turcos e de fazer promessas dum futuro estado árabe, no território da Grande Síria.

As sabotagens do caminho de ferro e a toma do porto de Aqaba foram fitos significativas para acabar com o poder otomano naqueles extensos territórios do Oriente.

No fim da guerra, o Império Otomano foi esquartejado, tanto na Europa como na Ásia. Mas nada ficou para os árabes do prometido. A França e o Reino Unido decidiram, num acordo secreto negociado entre 1915 e 1916 e assinado no 1916 polos diplomáticos Sykes, pola parte britânica, e Picot, pola francesa, repartirem-se o território segundo critérios, digamos, “pouco claros” nos seus motivos. Para a França a prioridade eram os portos no Mediterrâneo de Líbano e Síria atuais. Para o R.U., os poços de petróleo do atual Iraque e Kwait, entre outros.

Consequências do Pacto Sykes-Picot

Este acordo definiu, a grandes riscos, as fronteiras atuais entre Síria e o Iraque claramente artificiosas. Também acabou por provocar a permanente crise dos territórios palestinos (do que o estado de Israel era uma parte) ocupados polo estado de Israel, vigia e suposto lacaio do mundo ocidental no ninho de víboras que os europeus sempre consideraram -e seguem a considerar- o mundo árabe.


O protetorado europeu (francês e britânico), por imposição da Sociedade de Nações, foi também a origem do especial estátus das minorias religiosas, nomeadamente cristãs, nos países maioritariamente mussulmanos (maronitas em Líbano, jacobitas na Síria, coptos no Egito...), assim como o das minorias étnicas. Hoje estes especiais estátus são fonte de consideráveis conflitos.

O Acordo Sykes-Picot não teve como objetivo evitar problemas de índole étnica ou religiosa. Muito ao contrário. As potências europeias aplicaram, e ainda aplicam, o princípio de servir-se de minorias para controlar melhor as maiorias não “representadas” polo poder. Esta atitude não deve surpreender ninguém pois foi a habitual na colonização durante o séc. XVIII de América (moicanos aliados dos ingleses contra franceses e hurões) e a India (sikhs e sipaios no exército britânico) e acabou por se converter em prática comum na África no século XIX e XX. E desses pós vêm os lodos das mal chamadas “guerras étnicas” ou, ainda pior, “tribais” na África pós-colonial (Hutus e Tutsis, por exemplo, em Ruanda). Mas esta é outra história.

Qualquer leitor avisado pode supor que esta arbitrária divisão do povo árabe em duas áreas de protetorado, e posteriormente, em diversos estados criados ad-hoc pola potência europeia dominante foi, e ainda é, origem de múltiplos problemas de toda índole e, no final, de conflitos bélicos. Um exemplo claro da influência atual de aquelas decisões é a luta dos kurdos, segregados polas fronteiras de Iraque, Síria e Turquia, por se instituírem como estado desde há décadas.

Para além dessas consequências, ficaram também as próprias dum processo colonial. Isto é, a adaptação das atividades económicas aos interesses da metrópole. E esses interesses foram, principalmente as matérias primas e nomeadamente o petróleo. A industrialização e modernização dos sistemas produtivos foram firmemente controladas, quando não impedidas, polas metrópoles com vistas a manter os territórios altamente dependentes dos produtos elaborados por elas. Além disso as suas elites políticas foram formadas e instituídas polos poderes europeus. A situação irá prolongar-se mesmo depois de os estados criados polas potencias europeias (França e o Reino Unido, lembro) se iniciarem num governo “independente”, dirigidos como estavam por agentes colaboradores dos colonizadores.    

A criação dos estados actuais              

Os britânicos decidiram dar aparência de autonomia aos árabes baixo o seu protetorado criando  dous estados marioneta e colocando na sua cabeça dous monarcas irmãos, filhos do xeque da Meca e membros da prestigiosa família árabe Haxemí, descendentes do profeta Muhammad (Mahoma). Faissal  em Síria e Abdulá no Iraque. Como Síria era protetorado francês, a monarquia foi recusada com a intervenção militar francesa. Os ingleses redistribuíram os irmãos como reis do Iraque (1922) e a Transjordânia (1946), respetivamente.

O reino de Transjordânia, hoje convertido em Jordânia, criado de zero, consegue, após numerosas peripécias, manter-se até o dia de hoje, regido por Abdullá II, filho de Hussein e descendente do primeiro rei.

A sorte do Iraque será diferente. Uma verdadeira guerra colonial, com uso de gás mostarda e outras armas químicas, permitirá ao Reino Unido manter o poder real e sustentar o monarca imposto por eles (Faissal I). A soberania não é reconhecida internacionalmente até 1933 e o descontento popular pola presença militar britânica e pola interferência económica na exploração do petróleo levarão o país a diversas situações de instabilidade. Até 1940  os sucessores de Faissal e os seus governos mantêm boas relações com o R. U., mas nesse ano chega ao poder um político nacionalista que vê como única saída contra o domínio britânico a colaboração com a Alemanha nazista. O poder britânico, por meios bélicos (Guerra de Iraque 1941), repõe no trono o monarca deposto, na altura Faissal II. E força o Iraque a declarar a guerra a Alemanha. O R.U. ocupa militarmente o território até 1945. Trás a IIª Guerra Mundial o Iraque torna-se zona de influência dos E.U.A.

Pola sua parte Síria, baixo protetorado francês, negocia a independência com a França em 1936 e se estabelece como república mas não chega a ser de facto estado soberano por falta de ratificação do estado “protetor”. Com a ocupação nazista da metrópole, fica baixo influência da Alemanha até ser “resgatada” por tropas inglesas e da França livre em 1941. A independência real chega em 1946.            

O Líbano foi ocupado por França mas formalmente se constitui em república no ano 1926. Durante a IIª Guerra Mundial (1941-1945) foi de novo ocupada por tropas francesas apoiadas polos britânicos.             

O Egito tem uma história diferente mas também sofreu a intervenção colonial britânica mesmo antes do que o resto de Oriente. A sua posição estratégica no caminho da India converteu o país num objetivo prioritário para os britânicos. Ainda no tempo do Império Otomano os britânicos controlavam de facto o território. Em 1914 derrocaram o “quedive” otomano em Egito, formaram um “protetorado militar” e nomearam sultão um homem da sua feitura (Hussein Kamil). As revoltas após a Iª G.M. aconselharam os britânicos criar um estado pseudo-independente monárquico e parlamentário controlado nas relações exteriores e nas comunicações por funcionários e militares britânicos. Com diversas modificações menores a monarquia egípcia seguiu baixo o controle do poder europeu até a revolução de 1952 (movimento dos oficiais).         
Como se acha de ver nesta síntese sintética da constituição dos estados de Oriente Próximo, a pressão das potências europeias “democrático-capitalistas” empurra os árabes a uma alinhação no campo dos inimigos destes “democratas” exploradores. Na altura da IIª Guerra Mundial, com o bando nazista. Os estados democratas, certos do erro no que os árabes caem, veem-se obrigados a encaminhá-los de novo ao seu verdadeiro destino polas armas. Os povos são como meninos, há que lhes ensinar qual a sua posição!

Não surpreende que entre os habitantes do Oriente Próximo, e os seus correligionários por todo o largo mundo, haja sentimentos negativos respeito dos nossos vizinhos europeus encarregados de “proteger” o território árabe. E isso sem ter em conta a humilhação que supus a constituição do estado de Israel no coração do mundo mussulmano. 

A partilha da Palestina

Em novembro de 1947 a Assembleia Geral das Nações Unidas, a pedido do Reino Unido [1], através da Resolução 181 decide a partilha do território que fica do protetorado da Palestina (os britânicos já segregaram Transjordânia no ano 1922) para a constituição dum estado árabe e um estado judeu.

O 47% do território foi destinada aos árabes, que computavam quase um milhão e meio de persoas. A porção para os sete centos mil judeus constituiu o 53%. Uns quinhentos mil judeus procediam da Europa e norte de África e acederam ao território desde antes de 1917, no tempo do mandato Turco. Jerusalém ficava baixo controle internacional. A desigualdade parece óbvia desde o início.

A Liga Árabe (fundada em 1945 polo Iraque, Jordânia, Líbano, Arábia Saudita, Síria e Iêmen) manifesta a sua oposição à criação do estado israelita.


A guerra entre palestinianos e sionistas começou no mesmo dia da declaração da ONU e prosseguiu até maio do ano seguinte. Nessa altura se proclama o estado de Israel e a guerra, que na realidade continua, transforma-se numa guerra entre o novo estado e os árabes da Palestina.

No entanto os britânicos, incumbidos para manterem a paz e a segurança nos territórios como administradores em nome da ONU, retiram-se. Nesse contexto vários estados árabes intervêm em apoio dos palestinianos. O conflito prolongou-se até 1949.

A guerra chega ao fim com os acordos que alcançaram individualmente os estados árabes vizinhos de Israel com este. Com eles estabeleceram as linhas fronteiriças temporariamente. Os ganhos territoriais para Israel não foram grandes mas ficariam como o primeiro passo para a absorção total, ainda em processo, do território da antiga Palestina.

O nascimento do partido Baath


O Partido Baath, também chamado Baaz, ou partido da ressurreição ou renascimento árabe socialista, foi fundado em 1947 no seu primeiro congresso em Damasco. Surge como resposta às necessidades do povo árabe contra as manipulações das potencias colonizadoras, nomeadas acima e particularmente à criação do estado de Israel.

Os ideólogos do novo movimento foram Michael Aflaq e Salah Al-Din al-Bitar. Assentam o seu ideário em três pontos: Unidade (do povo árabe num único estado), Liberdade (das potências coloniais), e Socialismo (árabe, baseado na tradição “coletivista” da cultura árabe islâmica e pré-islâmica mas do que no marxismo). Outro fator constante na mensagem, e na sua prática ali onde alcançou poder, é o Laicismo por mais que respeite a tradição da Xária e do Corão. Fagamos uma análise sequer superficial.

O panarabismo (a unidade, waḥda) pretendia criar um estado árabe único com os territórios de cultura tradicional árabe. A ideia era velha e servira de base (enganosa por parte dos britânicos) aos tratos com os xeques durante a Iª Guerra Mundial. A política de divisão do pacto Sykes-Picot e posteriores desenvolvimentos (já vistos) são a resposta ocidental. Daquela ideia de unidade ficam as cores das bandeiras dos hipotéticos estados que constituiriam o estado árabe unitário.  

O socialismo, mesmo que de corte tradicional não marxista (rejeitado por ateu e internacionalista), desgostou aos colonizadores em plena Guerra Fria com o bloco Soviético e facilitou o alinhamento dos árabes com esta potência ou com os “Países Não Alinhados”. O corte socialista que se pretendia, hipoteticamente, implantar visava a nacionalização dos meios de produção mas também manter a propriedade privada (individual e coletiva) e as tradições hereditárias sobre os bens. Ao longo do período até a atualidade as potências coloniais (ás que se agregou EUA a partir da IIª G.M.) procuraram dinamitar qualquer intento de aplicação socialista. Nos estados em que se procurou (o Iraque ou Argélia, por ex., ricos em gás e petróleo) a corrupção foi o fator limitante para a distribuição social da riqueza.

Quanto à liberdade, o processo de descolonização foi, como já dissemos, desigual. No que atinge à liberdade individual podemos citar um exemplo do Egito. Aí, onde ideário do “socialismo árabe nacionalista” se realizou no partido Gamal, o direito a voto das mulheres foi outorgado por Nasser em 1954 (cedo se o comparamos com Espanha (1979) ou Suíça (1971)).

Na Síria e o Iraque o partido Baaz acedeu ao poder na década dos sessenta. Na Síria mediante uma revolução. No Iraque, onde o partido estava fortemente implantado no exército, por golpe de estado. As diferenças entre os baazistas das duas repúblicas árabes ao chegarem ao poder levou à rotura do partido e à criação de duas tendências (uma por país) dentro da estrutura do partido nos demais países árabes onde tinha representação.

O Canal de Suez: Um exemplo da manipulação europeia

Não acho necessário apresentar o Canal de Suez. Como obra estratégica para o comércio mundial sempre está no ponto de mira dos governantes do R.U. e de todos os outros europeus (e também americanos), não seja que os árabes decidam tomar o controle do que passa por ele.

Desde a construção o controle do canal ficou em mãos de franceses e britânicos. Apenas no ano 1956, em junho, foi entregue à administração egípcia. No mês de julho desse ano Abdul Nasser, presidente do Egito do partido Gamal, nacionaliza o canal.

Quatro meses após a nacionalização, em outubro, o exército de Israel, em tensa relação com o Egito polo apoio ou, quando menos, permissividade do seu governo com os guerrilheiros (terroristas para os israelitas) palestinianos, invade a Península do Sinai e avança em direção à zona do canal.

Israel recebe, em secreto, o “apoio diplomático e logístico” de britânicos e franceses (sempre o tandem). Também uma consistente condena internacional. Os governos de ambos os países europeus propõem a intermediação das suas tropas (40.000 britânicos e 35.000 franceses). Nasser não aceita,  obviamente, a tal intervenção e ambos os estados decidem ocupar o canal militarmente. (já de ter as tropas preparadas...!).

A União Soviética interveio ameaçando com uma ação militar. Era o tempo da Guerra Fria (segundo em que territórios era mais quente do que nunca antes), Hungria estava em plena crise de ocupação soviética e EUA não queria mais frontes abertas. No armistício acorda-se a devolução do canal a Egito, que fica definitivamente alinhada ao lado da URSS. A União Soviética arma os estados árabes desde então.

Novas crises irão ocorrer sobre o canal de Suez, autêntica espada de Damocles para a liberdade dos egípcios e integridade da sua soberania. Ou, visto desde Europa, uma constante ameaça da economia internacional e da primazia e modo de vida ocidental.

Até aqui a segunda entrega desta análise. Como se acha de ver polo tratado acima, entre a Iª Guerra Mundial e os anos 50, os estados ocidentais e nomeadamente o Reino Unido e a França jogam um papel significativo no atraso económico e político dos países árabes mas também no sofrimento real das suas gentes a conta de guerras e intervenções militares e políticas diretas e indiretas. Ademais promovem e utilizam o estado de Israel como um fator de instabilidade e humilhação constante da etnia árabe e como uma justificação permanente para certos modelos mais ou menos autoritários e políticas de confrontação (contra esse “corpo estranho” imposto por ocidente) e divisão entre os diversos estados árabes.

Eis pois um caldo de cultivo para futuros desenvolvimentos violentos fora dos territórios do Oriente Próximo. Infelizmente o caldo irá a se concentrar mais e mais nos seguintes anos. Desse processo falaremos em próximas entregas. 

[1] Já no 1917 o primeiro ministro britânico respaldara publicamente o plano da comunidade judia do R.U. de colonizar o território de Palestina criando o “lar nacional judeu”.