Terra e Tempo. Dixital Galego de pensamento nacionalista.
16-04-2016

Descrever o que se vê é considerado, com frequência, uma perda de tempo mas, por vezes, descobre á nossa mente o que o olhar não vê

A fivela de Bragança na Wiki ou como ver o que não há

HENRIQUE EGEA LAPINA


Em passados dias, a falar de cousas do “nosso” passado e do desconhecimento que, em geral, ha entre o público galego delas, “apresentei” a uma persoa esta fivela. Ficou realmente surpreendida de ver uma peça tão espectacular da que não tinha a menor noção (e não é persoa falta de formação acadêmica e de interesse polas “nossas antigïdades”).

Desconhecedor do local actual de exposição ou depôsito, procurei na Wiki (essa “ciclopédia” para consulta de qualquer cousa) essa informação que, entre os presentes, era insegura. Surpreendeu em primeiro lugar não existir entrada da fivela na Wiki nem em galego nem em português. Apenas espanhol, inglês e francês!


Para deixá-lo claro direi que está no British Museum e que chegou ali, em 2001, das mãos dum ourive norteamericano que lha comprou a um membro da familia real portuguesa no exílio (daí o nome).

Ao que queria referir-me neste artigo é á explicação que o autor da entrada da Wiki dá sobre a origem, feitura e interpretação da joia.

Uma descrição:

Descrever o que se vê é considerado, com frequência, uma perda de tempo mas, por vezes, descobre á nossa mente o que o olhar não vê. Dizer o que se vê com palavras provoca na nossa mente uma imagem mais fiel do que a observação... excepto que sejamos debuxantes profissionais, afeitos a observar e conservar as percepções. Eis uma descrição:

A fivela (de acreditarmos nessa classificação, da que eu duvido), feita em ouro, está constituída por um arco na parte extrema (esquerda na foto anterior) rematado em ambos os extremos por cabeças animais, cães provavelmente, com as fauces abertas. Uma delas “engole” o extremo duma barra de secção quadrada prolongação duma corda de dous cabos. Entre ambos os cães o “corpo” do arco está ornado de filigrana curvilínea aparentemente vegetal. Na parte exterior do arco umas cristas sucesivas (de direita à esquerda) descrevem espirais que nacem do arco e se estreitam na parte superior, adornadas com bolinhas en toda a sua longura.


No extremo superior direito do arco (na foto anterior) uma figura humana apoia as nádegas. Seria mais exacto dizer encaixa a raganha, mas... As pernas e os pés parecem estar apoiados com força numa base (inexistente) substuída por uma pletina que os conecta com o peito do animal que o ataca. A figura está espida e apenas porta um escudo; uma espada (desaparecida) na mão direita; uma baínha colgada dum cinto, longa e adornada, e um capacete de tipo montefortino. Parece um homem, sem barba nem bigodes e o cabelo fica oculto polo capacete.

O escudo representado é longo e de forma oval, de superfície plana com uma espinha central no eixo vertical alargada na zona do umbo   -para dar espaço á asa- e com um reforço metálico neste ponto (centro do escudo). Os bordes de arredor do escudo estám ornados com semicirculos concéntricos. Polas características descritas corresponde a um tipo de escudo, denominado em latim scutum, de clara procedência céltica, adoptado por outras étnias (tracios, p. ex. e mesmo romanos).

Da espada pouco podemos dizer por ter desaparecido mas a baínha permite deducir dous dados: a sua longitude e largo de folha. Ambas as características são típicas das espadas célticas. A baínha e o pulso da mão que empunha a espada parecem estar tortos num ângulo similar.

Sobre o escudo, sem apoiarem-se aparentemente, as gadoupas dianteiras dum animal. Leão, cão, lobo ou animal mitológico? Não saberia dizer. Apenas cabeça e patas dianteiras e uma mínima porção da parte dianteira do corpo.


A seguir, para a direita da fivela, várias formas geométricas conectam com outro animal, orientado no sentido inverso que engole o remate duma “corda” de dous cabos. A corda, após virar 180 graus, atravessa a cabeça dum javali, de cairos bem aguçados, orientada na mesma direcção, e continua até chegar a uma barra de secção quadrada que num ángulo de noventa graus entra na boca do animal que rematava o arco, baixo a figura humana. Esa secção está gravada com formas sinuosas que poderiam asemelhar-se a ondas ou folhas.

A partir das fotos tenho a sensação de que a peça está retocada em vários pontos e que a montagem actual não responde à finalidade que se pode supor a uma fivela (unir duas orlas duma prenda de abrigo). Mas eu não sou nem arqueólogo nem especialista em arte suntuário móvel. Não é este o lugar para fazer as minhas propostas.

Análise e crítica do artigo

Não sei que opinará quem isto ler mas, na minha opinião, todos os elementos da fivela parecem remeter á cosmovisão aceitada tradicionalmente como céltica. Então por quê os autores dos artigos da Wiki supoem que o ourives que a desenhou e elaborou “é grego”? Mesmo a pesar de dizer o autor do artigo em espanhol no hai en ella ninguna concesión a lo clásico. Tal vez o argumento fundamental, não enunciado, seja a convição íntima de que um ourives célta (paradigma da barbárie) não é quem de fazer algo tão perfeito.

De ser assim estám partindo dum prejuíço. Exactamente o que um cientista deve evitar. Mas a capacidade para guiar-se por juiços prévios não comprovados chega a extremos significativos na entrada da Wiki em espanhol.

O autor restringe ao ámbito galaico ou lusitano a procedencia da peça por dous motivos: 1. a origem portuguesa (coerente, ainda que o facto de possuí-la um monarca português exiliado não certifica a origem última do objecto que poderia ser, por exemplo, gala) e 2. por la temática representada.


Evidentemente o autor aceita sem dúvidas a celticidade de ambos os territórios. O que resulta chocante é que, segundo ele, a temática é sin duda el tema de Hércules, muy popular en el ámbito de Gallaecia y del suroeste. Sim, lerom bem: Hércules. Aquel heroe que, com efeito, loitou com javalis e cães e leões. Aquel difusor da cultura helena que matava monstros para maior glória (kleos) de Hera. O da maça, o da pel de leão, o barbudo, o forçudo que sosteve o mundo nos seus ombros... A sério pode alguém ver nesta figura masculina imberbe ao poderoso Heracles/Hércules? Espido, armado á céltica, imberbe e com capacete!?

Mas o melhor do caso é que, já decididos a ver o que não há, por que não elaborar uma complexa explicação partindo duma identificação, quando menos, discutível?

Baseando-se em Pena Granha (a quem não li nada sobre a fivela) o programa iconográfico –diz o autor- são os trabalhos de Hércules. E desde essa convição íntima o autor do artigo, diferenciando-se do autor en inglés, mais prudente, inicia uma rolda de identificações entre os motivos da fívela e os trabalhos de Hércules.

A cabeça do javali, segundo ele mal situada nalguma restauração, identifica o javali de Erimanto. As duas cabeças de cães nos extremos do arco são Cerbero con su erizado lomo de serpientes (as espirais que a mim me evocam rajos de polvo). Mesmo o mar está representado pars pro toto mas não concretiza por que meios... As espirais de novo ou as incisões no espigão? Ainda se permite imaginar que a agulha (perdida) poderia ter outros trabalhos (posiblemente los trabajos representados en el largo travesaño)... e também fala do animal que ataca o guerreiro a quem considera (sem citar fontes fidedigna nenhuma) substituto de el león original (sic!), sin duda(?) por estar roto o deteriorado, en una tan hermosa como desafortunada restauración realizada, sin duda, en la Belle Époque (?). O de ter sido leão fai-se necessário para confirmar (em bucle conceptual com mais uma suposição) que a sua identificação com Hércules é adequada... Do da restauração e a Belle Epoque nem falar.

Para ir rematando... Acho que é útil e necessário para a interpretação do passado elaborar uma análise pormenorizada dos artefactos achados mas deducir dos dados frios hipóteses sem o menor sustém resulta, quando menos, atrevido. Justificar na presença de tres cabeças de cães e a dum javali mais um hipotético leão que o heroi é Hércules vai mais alá do razonável. Por que não propor um cenário de caça na tradição mais atlântica?

Suponho que o autor do artigo pretende (pola sua insistência en repetir o adágio more céltico) regeitar a proposta feita polo MAN (museu arqueológico nacional, de Espanha) que, durante uma exposição temporal sobre arte ibérica, insistia em identificar a peça com a arte ibérica (dos iberos e não da península) até o ponto de deturpar nos gráficos a forma do capacete montefortino do guerreiro para asimilá-la ás representações de guerreiros ibéricos com prendas de cabeça com “crista”. Mas para deixar claro que el programa iconográfico é celta basta com a filigrana e o armamento da figura.

Outra cousa é atribuir a fábrica a um ourives heleno... sem o menor sustento. Porque o caminho Heracleio que cita como via de “peregrinação” do ourives heleno ao ocidente (e por onde foi Hanníbal a Itália) está traçado do passo dos Pirineus orientais ao promontório Sacro (cabo São Vicente), atravessando a P. Ibérica de norleste a suroeste... longe da Lusitania e ainda mais da Gallaecia.


  Nota: as fotografias, de domínio público, estám tiradas da página web do Museu Británico  (http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_details.aspx?objectId=467441&partId=1&people=31892&peoA=31892-3-18&page=1 ) onde figuram outras 28 fotos de grande detalhe.


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Nota da Fundación Bautista Álvarez, editora do dixital Terra e Tempo
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