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06-03-2020

Para abolir a verdade, o poder deve ensinar ideologia; instrumentalizar a imprensa; propagar fake news e produzir realidade

Extradição de Assange: Poderá um toque francês furar a farsa neo-orwelliana?

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PEPE ESCOBAR


É bastante adequado que o destino judicial de Julian Assange – imperialmente pré determinado – esteja a ser jogado na Grã-Bretanha, a terra natal de George Orwell.

Como descrito pelos penosos, dolorosos, relatórios do embaixador Craig Murray, o que está a acontecer no tribunal de Woolwich Crown é uma farsa sub-orwelliana com toques de Conrad: o horror... o horror..., reencenada para os frenéticos anos vinte. O cerne das nossas trevas mentais não está no Congo: está numa lúgubre sala de tribunal ligada a uma penitenciária, presidida por uma desprezível lacaia imperial.

Num dos livros de Michel Onfray publicado no ano passado, Theorie de la Dictature (ed. Robert Laffont), o principal dissidente e politicamente incorrecto filósofo francês principia exactamente a partir de Orwell ao examinar as características chave da nova imagem de uma ditadura. Ele rastreia sete caminhos de destruição: destruir a liberdade, empobrecer a linguagem, abolir a verdade, suprimir a história, negar a natureza, propagar o ódio e aspirar ao império.

Para destruir a liberdade, enfatiza Onfray, o poder precisa assegurar vigilância perpétua; destruir a vida pessoal; suprimir a solidão; tornar a opinião uniforme e denunciar crimes de pensamento. Isto soa como o roteiro do governo dos Estados Unidos para a perseguição de Assange.

Outros caminhos, como no empobrecimento da linguagem, incluem a prática da novilíngua (newspeak); utilizando dupla linguagem; destruindo palavras; oralizando a linguagem; falando uma linguagem única e suprimindo os clássicos. Isto soa como o modus operandi das classes dominantes do Poder hegemónico.

Para abolir a verdade, o poder deve ensinar ideologia; instrumentalizar a imprensa; propagar fake news e produzir realidade. Para propagar o ódio, o poder, entre outros instrumentos, deve criar um inimigo; fomentar guerras e psiquiatrizar o pensamento crítico.

Não há dúvida de que já estamos atolados profundamente dentro desta distopia neo-orwelliana.

John Milton, autor de Paraíso perdido publicado em 1642, não podia ter sido mais profético quando escreveu: "Aqueles que ferem os olhos do povo culpam-no por ser cego". Como não identificar um paralelo directo com o exército do Le Petit Roi Emmanuel Macron, mês após mês, a deliberadamente cegar o protesto dos Coletes Amarelos nas ruas de França?

Orwell era mais directo do que Milton, dizendo que falar acerca de liberdade não tem significado a menos que se refira à liberdade de dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir. E ele põe isto em contexto ao citar uma linha de Milton: "Pelas regras conhecidas da antiga liberdade".

Mas nenhumas "regras conhecidas da antiga liberdade" são permitidas ao entrar no coração das trevas do tribunal de Woolwich Crown.

Um espião ao serviço do povo
Juan Branco é provavelmente o mais brilhante jovem intelectual francês – herdeiro de uma fina tradição que vem de Sartre/Foucault/Deleuze. O establishment francês detesta-o, especialmente por causa do seu best-seller Crépuscule , onde disseca o macronismo – estigmatizado como um regime gangster – a partir de dentro e o presidente francês como uma criatura e instrumento de uma minúscula oligarquia.

Ele acaba de publicar Assange: L'Antisouverain (Les Editions du Cerf), um estudo absorvente e erudito que define como "um livro de filosofia acerca da figura do Anti-Soberano". O Soberano é naturalmente o aparelho de estado.

Aqui (em francês) está uma excelente entrevista com Branco acerca do livro. Não há nada que seja remotamente comparável com isto na anglo-esfera, a qual tem tratado Assange essencialmente como um esquisito desagradável que ressuma difamação vulgar e acumula tiradas sub-ideológicas disfarçadas como factos.

O livro foi estruturado como um seminário para a super-selectiva Ecole Normale Superieure, a augusta escola no Quartier Latin que modela as elites francesas, um ninho privilegiado de instituições do poder e de reprodução de privilégios. Branco leva o leitor ao âmago deste universo só para fazê-lo descobrir Assange do ponto de vista de um daqueles estudantes.

Branco teve o privilégio de aproveitar a interacção entre a Ecole Normale Superieure e Yale. Ele encontrou Assange na embaixada equatoriana, em Janeiro de 2014, "num estado de confinamento radical" e a seguir acompanhou-o como consultor jurídico, advogado, "dia após dia", até reunir-se outra vez com ele e Setembro de 2016, "a preparar-se para nada menos do que mudar o curso da eleição presidencial americana e engendrar a queda daquela que havia jurado esmagá-lo, Hillary Rodham Clinton".

Branco está fascinado pelo "jornalismo científico" de Assange e pela sua capacidade de "intervir no espaço político sem ocupar um lugar específico". Assim, Assange é retratado como um oráculo contemporâneo, um maníaco pelo acesso livre à informação, alguém que "nunca procurou uma recompensa ou inserção, ou protecção judicial", o que é um modus operandi totalmente diferente de qualquer media.

Branco mostra como a WikiLeaks "permitiu a actuação de denunciantes", com o crescimento de um arquivo paralelo à "produção de dados relacionados ao mecanismo dos aparelhos de poder contemporâneos". Sob este sistema, "todo cidadão é capaz de se tornar um investigador".

Assim, o trabalho de Assange tem sido acerca da redistribuição de poder. É como se Assange se tivesse tornado "um espião a serviço do povo". E isso leva Branco a traçar a conexão com os Coletes Amarelos. Quando a WikiLeaks divulgou as "Macron Leaks" , em 2017, legitimou a luta dos Coletes Amarelos pela democracia directa.

Branco descreve Assange como "uma figura estranha, uma ponte entre a pré-história da civilização digital e a sua penetração definitiva como um elemento primordial, estrutural, do espaço político e social".

Mas provavelmente a sua melhor avaliação de Assange é como "um dissidente do seu próprio espaço interno, interessado sobretudo na esfera da dominação cultural, económica e social na qual nasceu, a do imperium americano, do qual sua Austrália nativa é um dos aliados mais dedicados, e que domina este ciberespaço onde ele se constituiu como um actor político".

No que poderia ser interpretado como razão principal para a ilimitada sede de vingança do governo dos Estados Unidos contra Assange está o facto de ele ter denunciado que "os actos americanos têm uma função regulatória natural para o resto do mundo, uma resultante da sua super-dominação do espaço geopolítico contemporâneo".

Está tudo no algoritmo
E isto nos traz ao cerne da questão: os algoritmos. Como resume Branco, "a revelação de documentos em estado bruto destina-se a devolver direitos no espaço político àqueles que foram descartados devido à sua submissão a palavras de autoridade que têm sido mascaradas por algoritmos".

Onfray já havia advertido acerca da "destruição de palavras", ao "empobrecimento da linguagem" e à adesão à novilíngua – mas Branco leva isso a um novo nível. Como "a palavra do poder é assimilada ao algoritmo, no sentido de que ela se beneficia de uma presunção de verdade, ela não revela, para permanecer eficaz, qualquer de seus recursos, estabelecendo uma realidade impossível de contestar".

Branco tem o cuidado de explicar que "O algoritmo não se teria transformado num poder social se não fosse escorado por uma pressuposição ética (a consagração do Homo Economicus ), sem uma assunção de cientificismo (portanto de universalidade) e sem uma ruptura tecnológica (big data)".

Branco resume a sua análise na fórmula "A algoritmização é o fundamento da soberania". E foi exactamente isto que Assange desafiou. E é por isso que ele é uma figura tão desagregadora, eternamente controversa, ao contrário de Edward Snowden, que basicamente é um sujeito médio – com um QI excelente – que apenas quer reformar um sistema.

Uma oportunidade para a Liberdade, Igualdade e Fraternidade?
Quando trabalhava em favor de Assange, Branco essencialmente coordenava uma equipe de juristas subordinados ao juiz-estrela Baltasar Garzon, o qual estava presente no tribunal de Woolwich Crown no início desta semana. Na semana passada, a equipe legal de Assange disse que iriam pedir asilo em França. Branco provavelmente não pode participar desta equipe por causa do seu "Crepuscule" – que estripa Macron.

O Petit Roi, por sua vez, talvez agora possa ser apresentado à suprema oportunidade de Relações Públicas ao nível global – se acabasse esta pavorosa farsa neo-orwelliana, oferecendo asilo a Assange e ao mesmo tempo ridicularizando Trump e Boris Johnson, reforçaria o seu status numa miríade de latitudes europeias e por todo o Sul Global.

Mas que não haja ilusões. Em 3 de julho de 2015, aconselhado pela sua equipe legal, Assange escreveu um artigo assinado para o Le Monde a indagar acerca da possibilidade de asilo. Apenas uma hora após a publicação, o Palácio do Eliseu – sob François Hollande – emitiu uma recusa firme. Não houve fugas quanto à espécie de pressão aplicada pelo Estado Profundo dos EUA.

O advogado de Assange, Geoffrey Robertson, não tem ilusões: "Ele não será perdoado pelo Presidente Trump, embora um [futuro] presidente Sanders talvez o possa perdoar. Penso que esse é o objectivo do Pentágono – encarcerá-lo pelo resto de sua vida".

Uma medida da covardia de todos os jornais consagrados que tanto lucraram com o trabalho de Assange e da WikiLeaks é este desprezível editorial de Le Monde , que a contragosto finge defendê-lo como jornalista e editor.

É inútil esperar que da parte dos media corporativos anglo-americanos haja sequer um mínimo da decência e admitir que jornalistas não devem ser tratados como espiões e criminosos perigosos. A criminalização do pensamento crítico – capaz de provocar, desmascarar e denunciar o poder bruto – é um ponto-chave da plataforma da nova ditadura examinada por Onfray e já está em vigor. Agora cabe a Onfray e a Branco não se perderem na tradução – e demonstrar vigorosamente à anglo-esfera que não se deve permitir a prevalência do coração das trevas.

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