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27-02-2020

Numa fuga, novos documentos foram revelados sobre a organização da propaganda britânica contra a Síria

A invenção do mito da «revolução síria» pelo Reino Unido

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THIERRY MEYSSAN


A democracia supõe que se possa realizar debates públicos honestos. Por conseguinte, a propaganda seria, pois, apanágio de regimes não-democráticos.
Ora, a História ensina-nos que a propaganda moderna foi concebida no Reino Unido e nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e que a URSS e a Alemanha nazista não passaram de pálidos imitadores.

Durante a guerra contra a Síria, explicamos muitas vezes que a realidade no terreno não correspondia, de forma nenhuma, à imagem que os Ocidentais dela recebiam. Denunciamos a montagem de “provas” pelos Serviços Secretos norte-americanos, britânicos, franceses e turcos para esconder a agressão ocidental e fazer crer numa revolução contra uma ditadura.

Quando o Reino Unido já não está presente no terreno desde 2018, o jornalista Ian Cobain acaba de publicar no Middle East Eye documentos oficiais britânicos que nos esclarecem sobre a maneira como Londres intoxicou maciçamente jornalistas de boa fé e depois se retirou. Ele já havia publicado no Guardian, em 2016, revelações sobre a organização do MI6 na matéria.

Sobretudo, é importante lembrar que os Britânicos não perseguiam, de forma alguma, o mesmo objectivo que os seus aliados dos EUA. Londres esperava recuperar a sua influência da época colonial (como Paris). O Reino Unido não acreditava que os Estados Unidos pretendiam destruir as estruturas estatais de conjunto do Médio-Oriente Alargado (estratégia Rumsfeld/Cebrowski). Por isso, concebera a operação das «Primaveras Árabes», baseada no modelo da «Grande Revolta Árabe» de Lawrence da Arábia (os Irmãos Muçulmanos desempenhando hoje em dia o papel dos Wahhabitas da Primeira Guerra Mundial). A sua propaganda fora, portanto, imaginada para criar a “Nova Síria” em volta desta Confraria e não para a dividir tal como desejava e ainda deseja a CIA.

Os Ocidentais haviam já sido convencidos da existência de revoluções na Tunísia, no Egipto e na Líbia. Era, portanto, mais fácil vender-lhes a ideia de um quarto cenário de operações.

Jornalistas de boa fé foram levados por revolucionários (na realidade os Serviços Secretos turcos e os da OTAN) a uma aldeia síria, Jabal Al-Zaouia, a fim de assistir a reuniões do Exército Livre da Síria e filmá-las. Foram muitos os alvos desta intoxicação e a acreditar num levantamento popular. Assim que essa encenação foi denunciada por Daniel Iriarte no diário espanhol ABC – já que, no local, ele tinha reconhecido não combatentes sírios, mas líbios, sob as ordens de Aldelhakim Belhaj e Mehdi al-Harati— a imprensa recusou reconhecer a manipulação de que tinha sido alvo. A incapacidade de jornalistas para admitir os seus erros, mesmo quando alguns dos seus colegas os baralham, continua a ser o melhor trunfo dos mestres da propaganda.

Como sempre, os Britânicos do RICU (Research, Information and Communications Unit - Unidade de Pesquisa, Informação e Comunicações) recorreram a um cientista, neste caso um «antropólogo», para supervisionar a manipulação. Ele confiou a realização a vários subcontratados, entre os quais um «antigo» oficial do MI6, o Coronel Paul Tilley; a palavra «antigo» é aqui importante, já que se tratava de poder negar toda a responsabilidade se a operação desse para o torto. Para estar próximo do terreno de operações, três gabinetes ad hoc foram abertos pelos subcontratados do MI6 em Istambul, Reyhanli (Turquia) e Amã (Jordânia), enquanto a CIA operava a partir da Alemanha.

Esta operação começou a partir do caso das armas químicas, no Verão de 2013, quando a Câmara dos Comuns, escaldada pela propaganda durante a guerra contra o Iraque, havia interdito, de forma estrita, ao Ministério da Defesa a colocação de tropas no terreno.

Por isso, o orçamento inicial do Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros-ndT) foi ampliado e assumido pelo Ministério da Defesa britânico e por Agências canadianas (canadenses-br) e norte-americanas, já que os militares não tinham outros meios para intervir.

Ela foi colocada sob o comando de um oficial do MI6, Jonathan Allen, que se tornou o número 2 da Delegação diplomática britânica no Conselho de Segurança da ONU.

A originalidade da operação, realizada, entre outros, pela Innovative Communications & Strategies (InCoStrat), é de ser apresentada como uma parceria comercial sem vínculo com as autoridades do Reino Unido. Os Sírios que nela participavam não tinham o sentimento de estar a trair o seu país, mas apenas de ter encontrado uma ocasião de ganhar dinheiro para sobreviver apesar da guerra. Em relação ao seu nível de vida, as remunerações pagas eram com efeito muito substanciais.

O sistema de « cidadãos-jornalistas» era muito económico tendo em vista as £ 500.000 libras mensais do orçamento britânico (US $ 50 a US $ 200 dólares por um vídeo, US $ 250 a US $ 500 dólares por colaborações regulares) para encontrar «informações» ou «provas» atestando a repressão do regime contra a sua própria população. Esses materiais, uma vez triados, eram enviados pelo MI6 à BBC, Sky News Arabic, Al-Jazeera (Catar) e Al-Arabiya (Arábia Saudita), quatro estações que participam totalmente no esforço de guerra ocidental, em violação das resoluções das Nações Unidas que proíbem a propaganda de guerra. Os colaboradores sírios deviam comprometer-se por escrito em permanecer anónimos, salvo autorização expressa, e a não divulgar as suas ligações a nenhuma empresa, fosse ela qual fosse.

Os jornalistas de boa-fé ocidentais, não podendo chegar até aos «jornalistas-cidadãos» sírios e verificar o contexto dos vídeos e de outras «provas» —o que é a razão de ser da sua corporação—, deixam-se convencer pelo ruído das quatro estações de televisão.

Os documentos de Ian Cobain atestam que a este alvo internacional se acrescentava um outro alvo na Síria. Londres desejava provocar uma mudança de atitude da população em favor dos «moderados» face aos «extremistas». Neste ponto, não parece que a Middle East Eye tenha percebido que essas palavras não devem ser interpretadas no sentido comum, mas à luz das decisões do Primeiro-Ministro Tony Blair. Este, durante a elaboração do plano das «Primaveras Árabes», postulara que o governo de Sua Majestade devia considerar como aliados os líderes «moderadamente anti-imperialistas», como os Irmãos Muçulmanos, enquanto os adversários seriam os «extremistas anti-imperialistas», tal como o regime nacionalista do Baath sírio.

O antropólogo que supervisionava o programa indicou além disso a necessidade de criar serviços de emergência no terreno (a Polícia Livre e os Capacetes Brancos do «antigo» oficial do MI6, James Le Mesurier) não tanto para vir em socorro da população, mas para lhe dar confiança nas futuras instituições uma vez derrotado o regime de União Nacional em torno do Baath. Sobre este ponto, ele fez referência ao plano de rendição total e incondicional da Síria, redigido pelo Alemão Volker Perthes para o número 2 da ONU, Jeffrey Feltman, que os Britânicos, no entanto, interpretaram mal.

Este desacordo foi a principal causa da confusão nesta operação quando Washington tentou criar o «Sunnistão» com o Daesh (E.I.) e o «Curdistão Livre» com o PKK turco e o PDK iraquiano. Os Britânicos, considerando que já não era a sua guerra, decidiram então retirar-se.

O programa do MI6 tinha três vectores:

Identidade síria :
«Unir os Sírios pela afirmação positiva de culturas, de práticas comuns e de restabelecer a confiança entre vizinhos, ao mesmo tempo mostrando a força dos Sírios pelo número».

Síria livre :
«Procurar reforçar a confiança num futuro da Síria isenta de regime “extremista”».

Acção de Sapa :

«Procurar degradar a eficácia das redes extremistas violentas (EV) na Síria sabotando a credibilidade das narrativas e dos actores EV e isolando, para isso, as organizações EV da população».

Segundo os documentos de Ian Cobain, os subcontratados do MI6 treinaram igualmente porta-vozes da oposição síria, desenvolveram contas em redes sociais e organizaram gabinetes de imprensa funcionando 24h/24. Eles não citam o design dos logotipos e as encenações hollywoodescas que nós havíamos relatado, tal como o desfile militar na Ghuta com tanques passando à frente das câmaras e com figurantes incluídos.

Os gabinetes de imprensa visaram pôr em ligação porta-vozes da oposição síria com jornalistas ocidentais e a dar-lhes resumos informativos antes das negociações. Dessa forma, a imprensa ocidental acreditava de boa fé obter as suas informações de fonte independente e a baixo custo. Se, no início, aquando da fase de desestabilização (até ao meio de 2012), todos os média (mídia-br) internacionais enviavam repórteres para o terreno (que os Britânicos manipulavam), hoje em dia não há lá nenhum. Os Ocidentais adquiriram o hábito de acreditar na agência de notícias criada, em Londres, pelo MI6 com os Irmãos Muçulmanos, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, muito embora este último não disponha dos meios para saber seja o que for de certos acontecimentos que finge cobrir.

O original encontra-se en https://www.voltairenet.org/article209308.html

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