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18-04-2019

Vivemos uma sociedade “diferente” ao modelo tradicional (ainda que conserve muitas das rémoras de aquela) mas com mentalidades e, sobre todo, políticas de outrora.

A cadeia de dependências

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HENRIQUE EGEA LAPINA


Ponhamos que eu tenho uma filha pequecha. Como trabalho (é um vício que a sociedade nos impõe e que uma vez que aceitamos ser assim, por vezes, nos nega). Moro com a minha companheira e, por fortuna, ambos trabalhamos mas os nossos horários são dificilmente compatíveis com a atenção duma pícara dum ano ou de dous, mesmo de tres. Quer dizer que a situação que descrevo prolonga-se certo tempo.

Uma solução tradicional para permitir à nai e ao pai da criatura tempo para comprar com tempo o seu soldo, magro ou grosso, era deixar-lhe o pacote a uma avoa, à materna preferentemente. Na nossa sociedade, como temos os filhos um pouco velhas e velhos (para acima dos 35) os avós também não estão para muitas obrigas. Mesmo assim, se a avoa pode...

Mas vaia! A única avoa que tem a criancinha também trabalha. É que muitos querem viver do seu... que viço!

Assim que despois de deliberar sobre o assunto e temerosos do que esta decisão pudesse comportar, decidimos contratar uma cuidadora, legalmente, para o tempo no que estamos a trabalhar e, às vezes (com alguma má consciência) para tempos de lazer. O primeiro ano pareceu-nos cedo de mais para introduzi-la no vertiginoso mundo das viriases de infantário. Isso viu depois, com os dous anos.

E que poderia sair mal? Perguntaram-se os leitores. Pode que na sua experiência nunca ninguém tivera uma dificuldade com cuidadores... Desde impontualidades, que entre nós parecem algo aceite, a influências com as que não concordamos (idioma, muito frequente; visão das relações entre mulheres e homens; métodos de chantagem emocional não aceitáveis para nós; e um longo etc que pode acabar, exagerando, por desatenção em quanto o what’s app rola vertiginosamente...). Não quero nem pensar em maus tratos.

Final mente, depois duma complexa seleção de candidatas de diversas idades, nacionalidades, origens e credos decantamo-nos por uma em concreto. Neste caso tínhamos alguma referência persoal dela mas, de não ser assim, deveríamos decidir a cegas, sem mais critério que a nossa intuição persoal, seja a que for. Sempre que os critérios não discordassem. Esse seria outro caso. Ela, a cuidadora, resultou ser uma mulher solteira e, a pesar de frisar os 35 anos, trabalha aqui e acolá atendendo meninos ou discapazitados enquanto não consegue trabalhar no seu (seja o que for, não vem ao caso). Digamos que, como a maioria da nossa juventude, com idade mais que suficiente para estar organizando a sua vida, com um trabalho e um projeto vital que poderia incluir meninos, ainda tem que preocupar-se cada tanto por obter um soldo, somando os poucos que ganha aqui e acolá, suficiente para sobre viver em companhia doutros (neste caso os seus irmãos) na mesma casa.  

Para mais complicação (e o caso é real, mas poderíamos citar outros com pais ou nais enfermos de enfermidades incapazitantes) a nossa cuidadora tem uma irmã com discapazidades severas que a impossibilitam de ficar só enquanto a nossa cuidadora se faz cargo da nossa filha. Procurar um centro de atenção para ela (mais velha do que a nossa cuidadora) é uma autêntica odisseia. Dous anos para resolver a sua discapacidade, que vai avançando manifestamente, por parte do concelho e uma pensão, de 400 euros, de todo ponto de vista insuficiente para algo mais que alimentar, vestir e calçar a receptora, sem falar do aluguer da morada. Para pagar uma residência privada fica fora de questão. Assim que contratou uma cuidadora à que lhe paga parte do soldo que percebe de nós e doutros “empresários”.

Às vezes um, desde fora, pensa que seria melhor não trabalhar fora e dedicar-se a cuidar o familiar discapazitado mas neste caso, como em tantos outros, a familiaridade é um pexo mais do que uma vantagem.

A cuidadora da irmã da cuidadora da nossa filha também tem os seus assuntos. Ponhamos que uma mãe com Alzheimer, um enfermo terminal na casa... ou é imigrante e necessita qualquer emprego para justificar a permanência neste acolhedor Reino de Espanha. Suponho que os que me leiam terám outros casos, nem melhores nem piores, diferentes, complexos. Cada quem sabe o que vive.

Que pretendo dizer com isto? Pois que a família já não é o eixo fundamentador da sociedade. Vivemos uma sociedade “diferente” ao modelo tradicional (ainda que conserve muitas das rémoras de aquela) mas com mentalidades e, sobre todo, políticas de outrora. Os nossos políticos (e ao dizer “nossos” não falo especificamente dos autonómicos ou dos que se alternam no poder, também falo dos “nossos”) carecem de sensibilidade social, tendem a desentender-se de assuntos que parecem ter pouca repercussão eleitoral. Acho que estám errados. A função da política é, ou deveria ser, fazer mais fácil, já nem me atrevo a dizer mais feliz, a vida dos administrados. Esse é o objetivo que todos esquecem.

Muitos pares têm sérias dificuldades para chegar com certa estabilidade à idade reprodutiva e quando pensam em criar a família devem sopesar muitas dificuldades. Outras são monoparentais em origem ou por resultado do fim da convivência entre os membros. Em qualquer caso as mulheres não ficam na casa para atenderem aos “seus lavores” que diziam noutrora. As avós são mulheres trabalhadoras e os avós também e quando chegam à reforma (retiro) não é da sua incumbência criarem os filhos dos seus filhos. As famílias de hoje têm feições muito variadas, muito mais do que muitos podem imaginar.

Para mais, mesmo que as famílias tenham a estrutura tradicional, as jornadas laborais são tão excessivas que pouco tempo real fica para lhe dedicar aos filhos, netos ou persoas dependentes sejam mães, irmãs, tias ou avós. Faz-se necessário outro modelo de assistência social para os que a necessitarem, que somos todos, num ou outro momento das nossas vidas.


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