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16-02-2019

Luzes e sombras dum projeto estrela (ou Carta aberta a Miguel Anxo Fernández Lores)

A humanização de Ponte Vedra

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HENRIQUE EGEA LAPINA



O modelo de cidade que o BNG, com o seu alcalde, M. Anxo Fdez Lores, à cabeça, tem desenvolvido em Ponte Vedra é o maior e mais internacional êxito dum governo nacionalista e, a estas alturas, um facto de todos conhecido. Esse modelo de cidade, para e por os cidadãos viandantes, tem recebido prémios internacionais, a emulação de urbes chinesas, italianas, portuguesas, etc; visitas de representantes de múltiplas instituições europeias e extraeuropeias e parabéns de instituições e organizações ecologistas... Em fim é tudo um êxito.

Tal vez alguns habitantes de Ponte Vedra não tenhamos tão alta opinião do caminho que leva a cidade mas isso é parte de toda ação humana: Nem todos podem estar a favor, quando menos totalmente. Ainda com todo o apoio dos empadroados pontevedreses é maioritário e maciço e muitos visitantes, quer turistas, quer vizinhos das redondezas desfrutam notavelmente desta vila de passeio e lazer. Para além disso os naturais ou naturalizados da Boa Vila, coma mim, percebem a diferença, por vezes já tão assumida, trás 18 anos, que nem damos por ela, quando imos a outras vilas e cidades, onde quer que elas estejam. E se te deslocas em cadeira de rodas ou tens uma criança com carrinho... nem falar! Ponte Vedra é que é!

Não insisto no que este processo tem de reforma e modernização de infraestruturas como esgotos, eliminação de verquidos no Leres e outras questões imprescindíveis e pouco visíveis para um visitante e facilmente esquecíveis para os naturais.

Desconheço se o projeto de cidade que o alcalde Lores e a sua equipa desenvolveu e desenvolve ainda nestes quase 19 anos de mandatos sucessivos era um projeto estabelecido pola direção do BNG ou se é uma aposta do Bloco de Ponte Vedra. O certo é que foi e é um êxito evidente.

EFEITOS DA HUMANIZAÇÃO

A causa desta transformação da vila muita gente tem escolhido, a pesar da escassez de trabalho não funcionarial, a Boa Vila para desenvolver o seu projeto vital, nomeadamente o de ter filhos ou filhas numa cidade cómoda, acolhedora e redefinida para a gente e as crianças que ocupam as ruas e podem jogar com liberdade e segurança nas praças e largos dela.

Um poderia pensar que o projeto de humanização do sr. Lores visava precisamente atrair população jovem em idade reprodutiva e que, aproveitando esse índice de nascimentos, por vezes, superior ao de defunções no concelho, ia galeguizar um par de gerações de pontevedreses implementando uma política linguística de imersão nas escolas infantis ou guarderias ou como queiram chama-las.

Mas não. O sr. alcalde e a sua equipa não tinha uma política linguística encaminhada a mergulhar centos de meninos nascidos em Ponte Vedra, ao calorzinho da humanização, na nossa língua que boa necessidade tem de planos assim à vista dos dados oficiais sobre uso entre os mais novos.

Parece que o plano não existiu nem existe na equipa do alcalde Lores. Acho que nem existe no BNG a nível nacional. Mais uma vez as políticas fundamentais e, entre elas, a política de fazer uma educação galega (que deveria ser urgente e preferente em todo nível e âmbito) deixa-se para o dia triunfal e sumptuoso em que venceremos nós. Eu duvido quando sucederá isso num país onde cada dia hai menos falantes e os rapazes nem são capazes de enunciar os seus pensamentos na língua do país.

Reconheço que tenho a teima de insistir (noutros artigos aqui publicados) na necessidade de atender as novas gerações para dar formação e, nomeadamente, para facilitar a aquisição do idioma que os seus pais, polos motivos que forem, não lhes transmitem. Mas ainda é mais necessário intervir, quanto se poda, para impedir que os que adquirem a língua dos seus familiares não a percam a mãos do sistema educativo.

Pode ser que as escolas infantis não sejam competência dos concelhos mas sim podem estar integradas noutras políticas que, segundo creio, são competência municipal. A política linguística pode -e deve- ir unida, também, à política social e à de igualdade. Os pais e mães que trabalham (e espero que sejam a maioria por não dizer a totalidade) necessitam de instituições e profissionais que cuidem e formem -melhor em galego- os seus filhos enquanto eles cumprem os densos horários laborais ligeiramente adaptados por graça das “políticas de conciliación familiar” vigentes no reino de Espanha.

Mesmo, de não assumirem os concelhos a direta criação de guardarias ou escolas infantis, poderiam favorecer-se, desde o próprio concelho, desde os departamentos de política social, igualdade, política linguística... o associacionismo e a colaboração entre as famílias com filhos pequenos (de 0 a 3 anos como mínimo).

Neste sentido a iniciativa privada do movimento reintegracionista tem criado uma rede, até agora pequeninha mas prometedora, de escolas SEMENTE na procura de dar solução real a um problema real: que os nossos filhos são reeducados em espanhol desde os mais tenros anos da infância.

UM TESTEMUNHO REAL

E eu preocupo-me disto porque no meu percurso vital vivi este “abandono” das instituições, que deveriam garantir a igualdade, como mínimo, dos cidadãos perante a lei.

Quando há vinte e um anos nasceu a minha primeira filha ainda não governava o sr. Lores. O meu voto polo BNG foi, entre outras muitas, uma aposta por uma galeguização do concelho, da administração (oral e escrita) e das atividades públicas e privadas. Infelizmente não foi nem segue a ser assim.

Naqueles anos iniciais do governo do BNG na cidade do Leres eu procurei com insistência e desesperança uma escola infantil, guardaria, kindergarten ou como queiram chama-la, pública ou privada, para que a educação iniciada na casa em galego, contra a opinião de parte da família, pudesse seguir-se entre meninhos galego-falantes e professores comprometidos, galego-educantes. Mesmo acabei por turnar-me com a mãe para levar a menina a Mosteiro, onde alguém me confirmara que uma professora impartia em galego por convicção. Uma autêntica sorte!

Infelizmente a sorte durou pouco. A professora, grávida, houve de colher baixa e a substituta era uma castelhano-falante que, ainda que quixera, não poderia falar nem palavra em galego porque, simplesmente, não sabia. E além disso não quixo.

Vinte anos depois, reincidente na paternidade, reconheço-o, acho-me na mesma circunstância. Uma filha, educada em galego na casa, começa a ser reeducada em espanhol numa Galinha Azul! Que pouco durou o projeto de galeguizar a infância nas Galescolas.

APRENDER DOS ERROS

Do dito acima podemos tirar diversas aprendizagens.

A primeira é que, de acreditarmos numa ideia, é possível leva-la a fim e obter êxito dentro e fora com o rosário de imitadores. Como aconteceu com o modelo de cidade, pode acontecer com a política de imersão linguística. E por isso animo ao senhor Lores a iniciar um plano para os próximos 20 anos.

Mas também nos serve de exemplo o projeto das SEMENTE onde a educação infantil, adaptada às fórmulas necessárias em cada circunstância, se desenvolve INTEGRAMENTE EM GALEGO INTERNACIONAL à margem do que a administração formula. Certo que somos poucos os implicados nesse projeto mas são muitas as famílias que ficam sem escolarizar as crianças por falta de infantários.

A segunda é que aguardar a ter poder pode demorar de mais, até converter o objetivo numa possibilidade do passado. Feito que complica consideravelmente a consecução do objetivo e obriga a desenhar novas políticas para fazer o que não se fez. Em breve teremos que mergulhar no nosso idioma as crianças educadas na casa em espanhol porque não haverá filhos e filhas de ninguém que sejam falantes nativos.

A terceira é que convém ter uma política para exercer o poder desde as instituições, com os objetivos, os meios e os prazos... agora que o BNG tem parcelas de poder em concelhos e deputações. Da improvisação acostuma sair pouca cousa de utilidade. Também devemos ter uma política, para aplicar quando não se está nas instituições, adaptada aos objetivos, os meios e os prazos que são possíveis desde a ação social, que não são poucos. E neste caso não falo de manifestar-se cada domingo por algo.

Há objetivos que NÃO PODEM AGUARDAR e necessitam uma política, realista, concreta e ativa para consegui-los. Esta prática serve como base para tempos piores, porque os tempos de não governar podem voltar pois desatendemos a base social do nosso voto (os jovens são menos mas chegarám a votar enquanto os velhos e os mais velhos chegaremos a um ponto em que não poderemos votar mais). Algo teremos que fazer enquanto o edifício do país arrue! Ou a opção é aguardar a melhores tempos?

A quarta é que, mesmo exercendo um certo poder, é possível negligenciar políticas essenciais como é a promoção e difusão do uso do nosso idioma. Como é evidente, tem-se deixado à sorte a iniciação linguística dos nossos meninhos e meninhas e, como todos sabemos, a sorte significa o modelo imperante, quer dizer o espanhol.

A quinta e última, tal vez à margem do dito acima, é que a consecução de objetivos concretos ainda que significativos é uma forma muito eficiente de difundir a ideologia e os princípios de qualquer entidade e especialmente do movimento galeguista. Transmitir a 200 famílias (por dizer um número, poderiam ser muitas mais) vinculação ao idioma a través dos miúdos da casa é um meio para prolongar a existência da nossa precarizada cultura.  






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