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21-05-2015

Em determinadas etapas participaram na batalha de ambos os lados mais de 2 milhões de pessoas

Nos 70 anos da Vitória de 1945 (II)

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JORGE CADIMA



A Guerra


Apesar de acordos de defesa mútua entre a Polónia e a Inglaterra e França, que obrigavam estes últimos a intervir militarmente em caso de agressão à Polónia, a verdade é que à invasão nazi se seguiram sete meses de quase inactividade militar, no que ficou conhecido em inglês por «phoney war», em francês por «drôle de guerre» e em alemão por «sitzkrieg» (’guerra sentada’). Esta «falsa guerra» prolongou-se mesmo durante a invasão da Dinamarca e Noruega em Abril de 1940. Apenas em Maio, quando as tropas nazis invadem a Bélgica, Holanda, Luxemburgo e França, e quando Chamberlain é substituído por Churchill, se pode falar de reais operações militares envolvendo as tropas anglo-francesas. A Segunda Guerra, tal como a Primeira, começava como expressão das rivalidades inter-imperialistas. Hitler, receoso de ver a Alemanha entalada entre duas frentes como em 1914-18, desejoso duma desforra histórica e consciente da receptividade que encontraria nas classes dominantes ocidentais, decide controlar a sua retaguarda para depois se dedicar ao objectivo estratégico de sempre: a URSS. O desastre de Dunkirk e a capitulação das classes dirigentes francesas permitiram que, em pouco tempo, Hitler controlasse o enorme potencial económico da Europa Ocidental continental, factor nada secundário para o curso da futura guerra a Leste.

Em Junho de 1941 começa o ataque à URSS. Foi nos gigantescos combates travados na Frente Leste que se decidiu a II GM. Por muito que custe à ficção hollywoodiana, «o ataque lançado pela Wehrmacht a 22 de Junho de 1941 foi a maior operação militar de que há registo histórico» e «nunca, nem antes, nem depois, uma batalha foi travada com tanta ferocidade por tantos homens, numa frente de batalha tão extensa». É impossível escamotear o facto histórico de que a grande maioria das forças armadas nazi-fascistas estava concentrada na Frente Leste, e que a sua derrota determinou a derrota final do nazismo em 1945. «Ao longo do ano 1942 o Exército Soviético combatia contra 98% do Exército Alemão operacional – 178 divisões concentradas na frente leste – enquanto que os britânicos combatiam contra quatro no Norte de África». É não apenas falso, mas vergonhoso, negar ou escamotear os incomparáveis sacrifícios do povo soviético, o heroísmo do seu Exército Vermelho, a determinação e firmeza dos dirigentes soviéticos, sem os quais o curso da História teria sido incomparavelmente mais negro para a Humanidade. Não se pode esquecer nem silenciar o heroísmo dos combatentes que, desde o primeiro dia da invasão da URSS deram a sua vida para travar o avanço da, até então invencível, máquina de guerra nazi. No final de 1941 os nazis foram travados às portas de Moscovo, numa planície sem obstáculos geográficos dignos de nota. Pela primeira vez, o caminho das tropas de Hitler fora travado. Nos duros meses seguintes, e à custa de incontáveis sacrifícios e pesadíssimas baixas, a resistência foi gradualmente assentando terreno e criando condições para passar à ofensiva. Cercada pelo avanço das tropas fascistas em Setembro de 1941, a segunda maior cidade soviética, Leninegrado, resistiu sem capitular 872 dias, até ao romper do cerco em Janeiro de 1944. A sua resistência heróica é bem o espelho do sacrifício soviético. O cerco custou a vida a quase um milhão de pessoas, das quais 650 mil morreram de fome, frio e doenças provocadas pela redução abaixo dos limites de sobrevivência das rações disponíveis.

Nos seus avanços de 1941-42, as tropas nazis penetraram em território soviético entre 850 e 1200 km, ocupando uma superfície de quase 2 milhões de km2 onde vivia cerca de 42% da população e com um terço da produção industrial. Nos territórios ocupados, concretizava-se a ‘limpeza’ de Hitler. Entre as vítimas contam-se os prisioneiros de guerra soviéticos que «a Wehrmacht sistematicamente matava à fome. Até ao final de Dezembro de 1941, de acordo com os registos da própria Wehrmacht, o número de prisioneiros alcançara 3,35 milhões. Destes, apenas 1,1 milhões ainda estavam vivos e apenas 400 mil em estado físico suficiente para trabalhar. Dos 2,25 milhões que morreram, 600 mil foram fuzilados». Os nazis prometeram a sobrevivência a quantos se juntassem aos bandos colaboracionistas do ‘Exército Vlasov’, «mas a esmagadora maioria dos prisioneiros de guerra soviéticos recusou a oferta e cerca de 2 milhões […] a quem foi dada a opção, entre 1942 e 1945, de colaboração ou morte pela fome, escolheram a morte em vez de ajudar os Nazis».

O recuo das tropas soviéticas retirou importante potencial económico ao esforço de guerra soviético. Foram tomadas medidas de fundo para enfrentar a emergência. Investiu-se nas vastas regiões não ocupadas (Urais, Sibéria, Ásia Central) e empreendeu-se uma épica desmontagem e transferência para Leste de «1523 empresas, entre elas 1360 grandes fábricas, a maioria de material de guerra. Em pouco mais de cinco meses foram transportados por via-férrea cerca de um milhão e meio de carruagens com instalações evacuadas». A superioridade do sistema socialista de planificação económica manifestou-se aqui em toda a sua plenitude. Nas palavras de Tooze: «Se houve um verdadeiro ‘milagre armamentista’ em 1942, ele verificou-se, não na Alemanha, mas nas fábricas de armas dos Urais. Apesar de ter sofrido perdas territoriais e perturbações que resultaram numa perda de 25% no produto nacional global, a União Soviética em 1942 conseguiu produzir mais do que a Alemanha em praticamente todas as categorias de armamento. […] Foi esta superioridade industrial, contrária a todas as expectativas, que permitiu ao Exército Vermelho, primeiro absorver a segunda grande investida da Wehrmacht e depois, em Novembro de 1942, lançar toda uma série de contra-ataques demolidores. […] os triunfos de Zhukov e seus colegas teriam sido impossíveis não fora o excelente material militar fornecido pelas fábricas soviéticas. […] Quem teve um desempenho excepcional foi a União Soviética, que em 1942 produziu o dobro das armas de infantaria, tantas peças de artilharia e quase tantos aviões de combate e tanques quantos os Estados Unidos, o campeão indiscutível de produção industrial a nível mundial. O milagre Soviético não se deveu ao auxílio ocidental». A grande industrialização soviética dos anos 30 foi decisiva para o desenlace da II GM.

A viragem nos campos de batalha deu-se em Estalinegrado. Travado no seu avanço para os grandes centros urbanos soviéticos, Hitler voltou-se para uma ofensiva mais a sul, visando o petróleo do Cáucaso, as regiões agrícolas do Volga e a indústria do Donbass e Estalinegrado. «Nesta situação começou a grandiosa batalha do Volga, que durou desde 17 de Julho de 1942 até 2 de Fevereiro de 1943. […] Em determinadas etapas participaram na batalha de ambos os lados mais de 2 milhões de pessoas […]. O bloco fascista perdeu na batalha de Estalinegrado entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos, quase 1,5 milhões de soldados e oficiais, cerca de 3000 tanques e canhões motorizados, mais de 12 000 canhões e morteiros, até 4400 aviões, ou seja, uma quarta parte das suas forças que actuavam na frente soviético-alemã».

Após Estalinegrado, as tropas soviéticas passaram à ofensiva. Haveriam de se seguir outras grandes batalhas, como Kursk no Verão de 1943. No final desse ano, metade do território soviético ocupado fora já libertado. Por toda a Europa ocupada surgiam movimentos de resistência popular armada, em que os comunistas desempenhavam papel determinante e que foram cruciais na libertação da Jugoslávia, Grécia, Albânia, França, Itália e outros países. Em Julho de 1943 dá-se também a primeira acção militar importante das potências ocidentais, com a invasão da Sicília, que conduziria a um golpe palaciano que derruba Mussolini. Quando em Setembro desse ano o novo governo italiano decide retirar o país da guerra, os alemães invadem e mantêm o centro do país sob ocupação até meados de 1944 e o norte até aos dias finais da guerra.

O desembarque da Normandia, apresentado como episódio decisivo da guerra, apenas se dá em Junho de 1944, ou seja, após todas as grandes batalhas que decidiram, na Frente Leste, o curso da guerra, e numa altura em que o Exército Vermelho completara praticamente a libertação do território nacional e iniciava a libertação dos países vizinhos. A libertação de Berlim pelas tropas soviéticas, em Maio de 1945, foi o episódio final da guerra na Europa e fez justiça histórica. Fora realmente a URSS, o seu Exército Vermelho, povo e Partido Comunista, que tiveram o papel decisivo na derrota do nazi-fascismo.

O pós-guerra

O papel determinante da URSS e dos comunistas na vitória sobre o nazi-fascismo alterou profundamente a correlação de forças mundial. Por toda a parte, o prestígio dos comunistas reforçou o movimento operário e as suas organizações, que alcançaram, na nova correlação de forças, conquistas sociais e laborais sem precedentes, quer com a chegada ao poder de governos populares no Leste da Europa, quer em países onde o domínio capitalista se manteve (nalguns com comunistas no governo). O movimento de libertação nacional dos países colonizados ou semi-colonizados avançou de forma impetuosa, lançando as bases para a derrocada dos impérios coloniais. Países imensos como a Índia e a Indonésia alcançaram a independência. Noutros (China, Vietname, Coreia), a libertação nacional e social fundiram-se com a vitória de revoluções que colocavam expressamente o objectivo do socialismo. Uma nova ordem mundial progressista, consubstanciada nos princípios da Carta da ONU, aflorava no horizonte. Mesmo nos países do centro capitalista foi possível arrancar ao grande capital conquistas importantes, como nacionalizações de sectores básicos da economia ou serviços de saúde, ensino e segurança social em muitos casos gratuitos e universais. A derrota do nazi-fascismo revelava também o seu conteúdo de classe ao obrigar as classes dominantes a fazer concessões até então impensáveis.

Para travar o impetuoso movimento operário e popular no plano mundial, antes mesmo do final da II GM as potências anglo-saxónicas optaram por um realinhamento que incorporou os adversários fascistas da véspera numa nova aliança global, em nome do anticomunismo. Os crimes atómicos dos EUA em Agosto de 1945 já foram muitas vezes descritos como sendo, não o último episódio da II GM, mas o primeiro do que se convencionaria chamar «Guerra Fria». A tentativa das potências europeias de preservar os seus impérios coloniais (na Indochina francesa, na Malásia britânica, na Indonésia holandesa, entre outras), fora acompanhada da opção pela contenção e, quando possível o esmagamento pela força, das grandes organizações populares da resistência antifascista. Na Europa, este esmagamento atingiu proporções brutais na Grécia, país em grande parte libertado pelo movimento de resistência popular EAM-ELAS, no qual a influência dos comunistas era decisiva. Em Dezembro de 1944, ainda em plena II GM, tropas britânicas e antigos serventuários da ocupação nazi disparam sobre manifestantes desarmados nas ruas de Atenas, provocando 28 mortos e centenas de feridos. A guerra iniciada pelos britânicos haveria de durar cinco anos e a ditadura mais três décadas. Idêntica aliança com fascistas repetiu-se a nível mundial, com especial relevância nas forças militares, policiais e repressivas de numerosos países. Salazar foi membro fundador da NATO, em 1949, e são conhecidas as ligações da PIDE com a CIA. Logo após o fim da guerra, em campos de concentração ingleses na Alemanha «suspeitos comunistas eram torturados numa tentativa de colher informação sobre as intenções militares soviéticas», sendo «pelo menos dois […] mortos à fome e pelo menos um espancado até à morte». Largas centenas de cientistas nazis, incluindo intervenientes directos nos mais sórdidos crimes, foram recrutados para trabalhar nos EUA (operação Paperclip), com papel de destaque, entre outros, no programa espacial norte-americano. Milhares de colaboracionistas nazis foram igualmente reciclados. De especial importância foi o recrutamento de toda a estrutura de espionagem militar nazi na URSS, chefiada por Reinhard Gehlen, que passou a trabalhar para a CIA no pós-guerra [39], chegando a organizar operações militares clandestinas em território da URSS. Em 1956, Gehlen foi nomeado como primeiro chefe da BND, os recém-criados serviços secretos da Alemanha Federal.

O perigo do fascismo hoje


A História mostra que o fascismo torna-se uma ameaça séria quando as classes dominantes optam pelo exercício do seu poder através da violência extrema. Hoje, são evidentes os sinais de alarme.

Desde o início de 2014 que um grande país europeu, a Ucrânia, tem fascistas assumidos nos órgãos de poder, chacinando populações civis (como no martirizado Donbass ou no massacre de Odessa). Tal como os seus antecessores dos anos 20 e 30, impõem pela violência e o terror as políticas de classe e de exploração dos trabalhadores e dos povos, desta vez sob a bandeira do FMI e da UE. Reabilitam e idolatrizam os colaboracionistas e carniceiros que participaram no terror nazi de há sete décadas. A sua ascensão ao poder e o seu reino de terror não acontecem à revelia dos EUA ou da União Europeia. Pelo contrário. São múltiplos os fios que ligam os modernos fascistas ucranianos aos velhos nazis reciclados pelos EUA. E não se trata apenas da Ucrânia. No dia 16 de Março, veteranos da divisão letã das Waffen-SS nazis e seus apoiantes desfilaram em Riga, capital da Letónia, país que detém actualmente a Presidência rotativa do Conselho da União Europeia. Marchas análogas têm-se realizado nos últimos anos também na Estónia e Lituânia, sem que tal facto perturbe as boas consciências ‘liberais’ e ‘democráticas’. A conivência assumiu dimensões até há pouco impensáveis em 18 de Dezembro de 2014, quando a Assembleia Geral da ONU votou uma resolução russa condenando a glorificação da ideologia nazi. A moção foi aprovada por 115 países. Mas três países votaram contra: EUA, Ucrânia e Canadá. E todos os países da União Europeia (incluindo Portugal) abstiveram-se. Gradualmente, a falsa equação entre nazismo e comunismo vai dando lugar à reabilitação do nazi-fascismo em nome do combate ao comunismo.

O mundo mudou muito desde 1939. Mas há fortes pontos de contacto com a realidade de então. De novo o capitalismo global se mostra incapaz de gerir as suas próprias contradições e crise. De novo, ambições de hegemonia planetária imposta pela força das armas fazem pairar o espectro de novo conflito mundial. As analogias não excluem importantes diferenças. Hoje a URSS, e tudo o que ela representava, desapareceu. E, como toda a realidade dos últimos anos revela à saciedade, os principais perigos de guerra não vêm hoje das potências emergentes, mas das velhas potências imperialistas (EUA e da UE) que, incapazes de estancar o seu declínio relativo e de travar a ascensão de outros países, nomeadamente extra-europeus, procuram pela via da força e da guerra manter o insustentável status quo. O declínio dos EUA, em particular, revela-se de grande perigosidade para a paz mundial, tendo em conta o imenso poderio bélico da, até aqui, superpotência capitalista. É da maior importância acertar na identificação das linhas de clivagem existentes, mesmo entre potências capitalistas, que permitam criar uma correlação de forças mais favorável à paz, aos trabalhadores e aos povos. Importa aprender com as lições da História. Entre as quais a grande lição da II GM sobre o papel decisivo da luta dos povos, mesmo perante as maiores adversidades e quando tudo pode parecer perdido. Foi essa confiança e determinação que permitiu ao povo soviético e ao seu Partido Comunista desempenhar o difícil mas honroso combate que salvou a Humanidade em 1945.


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