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15-09-2014

Esta é a história de outra derrota, de uma de tantas que laceram com rítmicos golpes de látego o devir histórico dos povos escravos

Irlanda, 1798

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MIGUEL RODRÍGUEZ CARNOTA



Esta é a história de outra derrota, de uma de tantas que laceram com rítmicos golpes de látego o devir histórico dos povos escravos. Depois da vitoria orangista de finais do XVII, Irlanda fica a mercê do arbitrário governo de uma minoria protestante ao serviço da coroa inglesa e de um parlamento de cartão, sem poderes reais sobre o seu território. Seguindo a estela das revoluções americana e francesa, no seio de uma minoria ilustrada origina-se a sociedade dos United Irishmen que, tendo a sua origem em protestantes liberais, vai-se estendendo cara o resto de confissões discrepantes e cara a própria maioria social autóctone de religião católica, empobrecida e sem direitos.

A reivindicação nacional dos United Irishmen levará a um dos mais cruentos e decisivos enfrentamentos armados da história irlandesa. Ninguém como Theobald Wolfe Tone, líder do movimento patriótico, encarna o fulgurante espírito do levantamento do 98. Ilustrado, protestante, revolucionário e liberal, este patriota descendente de refugiados huguenotes foi exilado prematuramente na França revolucionária, onde procura o apoio do Diretório para a causa irlandesa. O cidadão Carnot e o general Hoche são os seus interlocutores, dos quais obtém apoio político e militar para uma empresa que se acabaria concretizando em varias aventuras bélicas, todas elas falidas. Entre intento e intento, o resoluto Tone não perde o tempo e, já em uniforme de Adjudant-général, acompanha o exército francês na defesa da República de Batávia, numa curta pero fogosa campanha militar.

Tal e como chegou até nós, o desenlace dos acontecimentos cumpre fielmente os cânones da tragédia romântica. No intento final de 1798, Tone logra avistar terra irlandesa desde um navio, à cabeça de uma frota de três mil homens em apoio do levantamento em curso. Não chega nem a desembarcar. Apresado no mesmo barco e levado à terra, é reconhecido por velhos inimigos trás do seu uniforme francês. Diante da corte marcial Tone declara-se culpável. Arrosta com decisão o seu fado de morte segura e, reafirmando-se nos seus ideais revolucionários, pede ser fusilado por um pelotão de granadeiros.  Ao ser-lhe negada a derradeira graça, Tone intenta o suicídio na soidade da sua cela, a noite anterior à execução. Com um cuitelo que guarda entre a roupa busca a carótida sem a atopar, mas infringe-se uma funda talhada no pescoço. Tamponada de urgência a ferida, Tone desculpa-se diante dos seus carcereiros por ser tão mal anatomista e convalesce por vários dias. Recuperada a consciência, o cirurgião informa-o ao ouvido sobre a sua gravidade: “se você intentar falar ou mover-se morrerá ao instante”. E agradecendo de viva voz tal reconfortante nova com um oportuno discurso, expirou aos trinta e cinco anos, semanas depois de que o seu levantamento fosse afogado em sangue.

O poeta e revolucionário John Keegan Casey cometeu a valentia de nascer meio século mais tarde. Era 1846, ano da derrotada Revolução galega e da grande fame irlandesa provocada pola peste das patacas que, contando com a inestimável ajuda do Império, dizimou a população, mandou centos de milhares para a América e feriu de morte a massa de falantes do idioma gaélico.  No seu poema The Rising of the Moon (A saída da lua), escrito no contexto do movimento feniano que levaria ao novamente fracassado levantamento de 1867, o jovem Casey utiliza o estilo épico e didático com o que os irlandeses soem narrar as suas pertinazes derrotas. The Rising of the Moon refere-se aos feitos de Vinegar Hill, crucial batalha que marcaria o fracasso do histórico levantamento do 98. Estamos em plena época romântica:

Venha, di-me, Sean O’Farrel, por que bules tanto?
Cala, rapaz, cala e escuita -e as suas façulas acendiam-se 
Levo ordens do capitão. Preparai-vos rápidos e velozes
Porque as picas devem juntar-se á saída da lua.  

O batalhão de croppies locais junta-se e marcha, armado de picas -um milheiro de gumes destelhavam à luz da lua- contra os canhões ingleses.

Bem lutaram pola pobre e velha Irlanda, e a amargura completa foi o seu fado.
Oh, que gloriosa mágoa e dor enchem o nome do noventa e oito!
Porém, graças a Deus, ainda latejam corações viris no meio-dia ardente
Que seguirão os seus passos á saída da lua.  

O poeta é apresado polas suas atividades anti-británicas e mandado á prisão de Mountjoy. Só depois de vários meses logra a liberdade baixo palavra de emigrar imediata e definitivamente à Austrália. Mas uma vez ceive, Casey rompe a sua promessa e decide ficar em Dublin, escrevendo e publicando baixo disfarce de quáquero. A sequela do maltrato carcerário provoca a sua morte dous anos depois, à curta idade de vinte e três anos.

Um século mais tarde, em 1966, Seamus Heaney retoma e relê os feitos de 1798 e de Vinegar Hill. Requiem for the Croppies é um dos mais afamados poemas do que anos mais tarde estaria chamado a ser Premio Nobel. Os croppies eram os campesinhos irlandeses que cortavam o cabelo a modo dos revolucionários franceses opostos às aristocráticas perucas. Heaney fala em primeira pessoa: os pelados em armas vestimos abrigos longos, movemo-nos com celeridade numa terra que nos pertence e que conhecemos. No nosso impetuoso exército carecemos de cocinha e levamos no peto do gabão presas de cevada para nos alimentar.  Aprendemos novas táticas de luita cada dia: estampidos de gado contra infantaria, retiradas estratégicas até sebes onde a cabalaria é derrubada. Ao fim chega o conclave final de Vinegar Hill. Ali, gadanha contra canhão, somos machucados até tingirmos de vermelho a aba do outeiro.

A ladeira ruborizou-se enchoupada na nossa onda destroçada.
Enterraram-nos sem mortalha nem cadaleito
E em Agosto… a cevada germolou sobre a nossa tumba.

Poema que nos lembra ao nosso querido Castelao, que num conhecido desenho incide no aspeto à vez trágico e frutífero das derrotas, tanto das nossas como as de todos os povos escravos: não enterramos cadavres, enterramos semente. 



[15-09-2014 10:12] Ernesto Vázquez Souza comentou:

Uma outra personagem, popular e interessante com esse fundo e mais o da reivindicação da Catalunha é o Stephen Maturin dos livros do Patrick O'Brian:

http://en.wikipedia.org/wiki/Stephen_Maturin

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